Caderno de Ossos
Julia Codo
Caderno de Ossos, 216 páginas, é da Cia. das Letras
A protagonista, não nomeada, mora na Inglaterra mas vem passar um tempo no Brasil, em 2019. Aqui, ela reencontra o avô, apelidado de Nani, cuja memória está se perdendo. “O Nani me olhou como se houvesse um vazio detrás dos seus olhos, como se me procurasse lá dentro. Pensou um pouco e se virou para a cuidadora do turno: Lucila, serve o café pra mocinha. Lucila era o nome da minha avó.”
Ela fica morando na casa desse avô, onde sua mãe também está morando, para ajudar a cuidar do pai idoso. A casa passa uma impressão de degradação, que algo que parou no tempo.
A casa também me parecia demente, com seus espaços que perderam cor e tenacidade, os objetos esquecidos ou exercendo funções estranhas: uma cadeira sem assento usada para segurar uma porta, um fogão quebrado usado como mesa de apoio na lavanderia, a cortina desbotada da sala que caiu e terminou dobrada para sempre em cima de uma poltrona, onde ninguém mais podia se sentar.
Pesando sobre a família, a memória de Eva, tia da protagonista, irmã de sua mãe, filha do Nani desmemoriado. Eva desapareceu no começo dos anos 1970. Ninguém tem dúvida de que foi morta pela ditadura.
Não me lembro que idade tinha quando reparei pela primeira vez na fotografia. Talvez tenha perguntado quem era aquela mulher que eu via ao lado da minha família. Também não me lembro se ao responder minha mãe usou um verbo no passado ou no presente, se a resposta foi “Era a Eva, minha irmã, ela morreu” ou “É a Eva, minha irmã, ninguém sabe onde ela está”
Lembranças da tia desaparecida logo são reavivadas. A protagonista encontra velhos cadernos de Eva, e o braço de uma boneca que pertencia a ela. Todos acreditam que os ossos de Eva podem estar entre os que foram descobertos em 1990 numa vala clandestina no cemitério de Perus. Durante a estadia da protagonista no Brasil, um evento acontece no Ibirapuera, um protesto contra medidas do governo Bolsonaro contra os esforços de busca e identificação desses mortos (“quem procura osso é cachorro”, dizia um cartaz na porta do gabinete dele quando era deputado).
O tema da memória perpassa a obra. O avô está demente. Esse recurso da senilidade é usado também em Ainda Estou Aqui (embora lá seja uma história real). É uma maneira de amarrar tematicamente o enredo pessoal com o assunto do país.
Pensei na memória como um mecanismo danificado, nas cenas esquartejadas na minha lembrança, os pedaços faltando, como os ossos da Eva, jogados num saco plástico azul. A história que não se completava, que não permitia que eu entendesse o que era preciso entender.
O avô dela trabalhava com demolição. Casas desaparecem, memórias desaparecem, pessoas desaparecem. Em alguns momentos achei essas analogias um pouco simplórias, mas em outros achei bem sacadas e delicadas.
um tijolo junto a outro tijolo junto a outro tijolo passa a ser uma parede, depois outra parede, depois uma casa, mas um dia a retroescavadeira transforma tudo em pedaços (...) vários ossos juntos formam um esqueleto (…) um dia essa pessoa morre de causas naturais ou acidentais e então a colocam debaixo da terra. Mais tarde, a carne é comida por vermes e se decompõe
O livro é bem escrito. Com poucos diálogos e pouca narração, encontra sua força nas reflexões da protagonista (muito bem construída) sobre sua família, seu casamento, o Brasil, o tempo, com um tom meio lírico que é bem equilibrado — sem sentimentalismo, sem frases instagramáveis — e nos saltos temporais que nos levam do presente para os anos 70 e para os anos 90, apresentando diferentes momentos das vidas dos personagens.
Uma coisa louvável deste livro é que ele incorpora um pouco de ciência ao repertório de ideias que maneja para contar sua história. Julia Codo traz um pouco de arqueologia, de genética, de teoria da relatividade, de buracos negros, e faz isso com propriedade, sem forçar analogias descabidas e sem falar besteira.
Nenhuma machadada.
(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)
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Achei bem atraente a sua apresentação do livro. Anotei para leituras futuras.
Ganhei esse livro de presente semana passada. Acabei ficando na dúvida se valeria a pena ler. Acho que sim!!!