Crime no Copan
Victor Bonini
Crime no Copan, 360 páginas, é da Cia. das Letras.
A história começa com uma festa de aniversário que se revela extremamente funesta. Um dos convidados, na verdade o aniversariante, desce para receber uma entrega de bebida, é assaltado e leva um tiro. Quase ao mesmo tempo, seu pai cai do décimo quinto andar. Suicídio? Assassinato? Alguma relação com o assalto? O que aconteceu?
A partir dessa premissa, Victor Bonini constrói uma narração não-linear e polifônica. O narrador ora acompanha o ponto de vista de um personagem, ora de outro, mostrando os acontecimentos ora de um dia, ora de outro, voltando a cenas já vistas para mostrá-las de outra perspectiva, revelando um pouco mais de um diálogo, a continuação de uma cena, a motivação de um ato. A festa do início é revisitada inúmeras vezes e vai se desdobrando como um origami. Devagar, a confusão vai clareando, vamos conhecendo melhor os fatos, as pessoas, as histórias.
Há muita margem para polifonia, já que o rol de personagens (Cecília, Lavínia, Lana, Agnes, Otávio, Lorenzo, Theo, Santiago, Ellen, Rosangela, Jéssica, Mayumi, Raimundo, Vando) é longo demais. Apesar de o autor tentar dar a cada um deles uma personalidade e contar um pouco de sua história, em muitos casos a abordagem é esquemática.
Dou alguns exemplos. Ellen, a mãe do aniversariante morto, tipifica a dondoca sem coração:
A empregada disse que não vinha porque estava mal do estômago. Agora Ellen arremessa tortinhas de camarão numa assadeira, e tem dúvida de como ligar o forno. Foi criada sem nunca tocar numa panela. Por que diabos agora, já avó, precisa se sujeitar a preparar comida para os outros? Tudo por causa de uma empregada folgada que não consegue segurar o cocô”
O delegado que vai investigar o caso é um puta babaca:
Precisa de quórum, isso sim. Às câmeras dos jornalistas, ele faz questão de posar na frente do grupo de investigadores e lançar frases de efeito: a ordem prevalecerá, esse bandido não sabe com quem se meteu. Eis a fragilidade do macho alfa. Um machista com uma cenourinha baby e dois tomates-cerejas no lugar da genitália.
A moradora Agnes revela a força da mulher brasileira, que enfrenta a dupla jornada e ainda faz tudo melhor que homem:
A salvação é Agnes, que hoje mostra por que tem nome de santa. Ela prende o cabelo, estrala os dedos e, mesmo sem ganhar um tostão por isso, corre aqui, liga lá, ajuda muito mais pela força de vontade do que pelo que conhece daquela administração. (…) Tava à toa, mesmo. À toa, para Agnes: cuidar dos filhos, da casa, do marido, do salão, agora da administração do prédio.
A investigadora, subordinada ao delegado, dá lição de moral sobre o combate ao crime:
Simone acredita que homicídio nenhum se resolve na base dos pedidos de prisão. O sujeito admite ter feito qualquer coisa quando está sob tortura, psicológica ou física. Para a investigadora, a verdade pura, fenômeno social, só se mostra em seu habitat. O coelho existe na toca, não na cartola. Enquanto a Polícia Civil não entender isso, o estado de São Paulo continuará resolvendo apenas três em cada dez homicídios.
As velhinhas não têm noção do perigo:
— Ai, não seria o máximo ter um assassino aqui no Copan?
— Rosângela! Que coisa horrível de se dizer — diz Pascoalina, se deliciando com o mesmo sonho.
Não teria muito problema usar personagens um tanto o quanto rasos num romance de mistério. Mas o autor quer trabalhar com a profundidade psicológica. Na impossibilidade de fazer isso com todos, escolheu seus preferidos e deixou os demais no rascunho. O resultado não poderia deixar de ser desigual. As mulheres são todas sensatas e/ou corajosas, enquanto os homens são todos insensíveis e/ou tolos, com exceção do gays.
A narração alterna momentos de investigação e andamento da trama, que têm maior tensão e ritmo mais acelerado, com paradas para contar o passado de algum personagem, que são mais lentas. É um método eficaz. O principal problema é que a trama é exageradamente convoluta. As reviravoltas, pistas falsas e revelações se acumulam e deixam o leitor desorientado. Todo mundo tem um segredo, todo mundo está descobrindo alguma coisa, nada é o que parece. Há uma tonelada de coincidências. Como o próprio texto afirma, “Tudo evolui muito rápido.” Na voz de uma das personagens: “A minha impressão é de que a gente tá dando voltas.”
Além disso, os sub-mistérios se ramificam: tem o problema do sangue, o problema da toalha, o problema da aparição, o problema da foto, o problema do grito, o problema do não-sei-quê, etc. Para um deles eu já nem lembro qual foi a resolução, um outro é absurdamente inverossímil (a inverossimilhança, em si mesma, não precisa ser defeito, depende da proposta, do grau de ironia que está presente. O problema é o inverossímil num romance que se pretende realista. Aí temos um curto-circuito que pode queimar a experiência).
Ao final, há tanta coisa a ser explicada que a narração se vale de notícias de telejornais e longas conversas para apresentar resumos e esclarecimentos didáticos. O livro teria se beneficiado muito de uma redução na complexidade da trama (e suas subtramas) e no número de personagens.
Duas machadadas.
(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)
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“Que coisa horrível de se dizer” não é fala brasileira. É tradução de filme dublado. De resto, obrigado pelo trabalho, Décio.
Déscio™ 74 resenhas descendo o machado e mostrando a lenha