Depois do abraço
Fernando Ignez
Depois do abraço, 182 páginas, é da Alta Noite
Há uma piada no meio literário segundo a qual os escritores brasileiros que são homens brancos só sabem escrever romances nos quais os protagonistas são escritores brasileiros, brancos e que estão passando por um divórcio.
Bom, Fernando Ignez ouviu essa brincadeira e disse: hold my beer. Essa é exatamente a premissa do livro dele.
Matias passou pelo fim de seu relacionamento com Maria, pela qual era muito apaixonado. É ela que termina com ele.
Acho que você vive num mundo de fantasia. É isso que eu acho. No mundo real, no mundo onde eu vivo, eu tô chegando perto dos quarenta e minha vida tá bem diferente do que eu planejei. Eu tirei essas férias pra conseguir um tempo só pra mim. Preciso pensar no caminho que eu quero seguir.
Deprimido, ele decide aceitar um convite para sair de São Paulo e passar uns dias numa cidadezinha bem pequena, cuidando das plantas e do gato de alguém que precisou viajar. Na calmaria do interior, vai tentar terminar seu terceiro romance, depois do fracasso dos dois primeiros.
O livro vai e volta no tempo, contando como os dois se conheceram, como foi o término e como está sendo na cidadezinha, onde Matias tem que aprender a conviver com os pernilongos e a falta de luz, além de socializar no único bar da redondeza. O contato com a natureza e uma vida mais simples vai lhe trazer mais paz e inspiração para escrever.
Sim, dá pra perceber que o projeto do autor poderia descarrilhar facilmente. Mas ele se vacina contra os defeitos que poderiam aparecer ao adotar um tom bem-humorado e entregando uma leitura que resulta bem divertida (a “agente literária” que ele arruma, por exemplo, é uma figura).
É por isso que seus livros não vendem. Quem vai querer ler a história de um casal que se separa e depois afunda na depressão?
A certa altura, o protagonista lê um parágrafo do livro que está escrevendo em voz alta, para um morador da cidadezinha chamado Armando. “Sentia-se melhor sentado. E sentia que a boca dela fazia parte de seu corpo. Mais do que a cabeça, os pés ou qualquer outra coisa. A boca. As rugas dos lábios. Os lábios úmidos. A boca se abrindo para soltar uma risada. A boca dela.” A reação de Armando a essa leitura é cortante: “Esse homem usou droga?”
O ponto forte da escrita é o distanciamento irônico, mas mesmo a parte mais sentimental da história é bem escrita, e qualquer um que sofreu por amor, ou seja, todo mundo, vai se identificar com a dor do Matias e com seu processo de recuperação.
Nenhuma machadada.
(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)
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O bilhete de divórcio e os romances fracassados são bem verossímeis, dito isso, vou procurar pra ler e volto aqui, rs
Super de acordo com a sua leitura, Décio!