Diálogo com J.P. Cuenca
Outro dia (ontem?) o J.P. Cuenca publicou (aqui) um texto interessante “Sobre estreias, jovens envelhecidos e o sentido de escrever” (esse é o subtítulo dele), falando sobre… bem, sobre isso aí. Sem intenção de “polemizar” nem nada, trago modestamente alguns outros pontos a respeito do tema.
Concordo com ele que “parir um romance de estreia, ficção literária, com o objetivo principal de ser aceito” num grupo é uma coisa triste, a ideia não deveria ser essa. Tudo bem. Segundo Cuenca, “as razões centrais que alguém deveria ter para escrever” são ler e ser. Aí já acho que faltou uma coisa fundamental, que é conversar.
Ler e ser fazem parte do esquema, com certeza, mas não são relacionais. O escritor quer também participar de uma interação, de um diálogo, quer tocar os demais, levar algo a eles, enfim, quer SER LIDO. No mínimo. De preferência, que sua obra seja não só lida mas comentada, debatida, apreciada, que faça parte da cultura comum. Esse é o grande, enorme ponto cego do texto.
O Cuenca admite que teve muita sorte no começo de sua carreira, a ponto de estar “na programação principal da primeira Flip antes mesmo do romance ter entrado no prelo”. Situação particularíssima. Já estava sendo ouvido sem ainda ter dito nada. Não me parece que ele aprecie devidamente o drama do escritor que não é lido.
Todo mundo já ouviu aquela pergunta supostamente zen, “se uma árvore cai e não há ninguém para ouvir, ela faz barulho?” Se ninguém leu o que você escreveu, você escreveu mesmo? O escritor sem o leitor é o tamborim sem a pele, é o arco sem a flecha, não sai nada. Talvez o processo de escrita tenha servido para resolver aí as suas questões internas, que bom pra você, mas e a troca? E quanto a produzir um efeito em uma outra subjetividade? Arte não é isso?
Querer ser lido é parte integrante de querer ser escritor, mas se confunde com querer ser publicado, que se confunde com querer vender, que se confunde com querer ter sucesso, que se confunde com querer fazer parte do clube. Mas cada uma dessas coisas é uma coisa diferente. Melhor empregar aqui a análise (do grego ἀνά+λύσις, separação) do que a síntese (σύν+θέσις, junção). Como diriam aqueles que falam assim, não é sobre consagração, é sobre comunicação.
Escritores me procuram a toda hora para que eu resenhe seus livros. Me mandam exemplares de graça, oferecem-nos como prêmio do meu concurso de contos. Querem sucesso? Ganhar dinheiro? Não, eles querem se conectar com leitores.
Outra ressalva que quero fazer é quanto a essa história de que estaria em jogo “a própria existência de quem escreve”. O Cuenca diz que começou a escrever porque “Terminei um longo relacionamento, entrei numa crise de depressão profunda”. Tudo bem, esse é um motivo tão bom quanto qualquer outro. Não é o único, não precisa ser.
Tem gente que começa a escrever porque quer registrar as memórias felizes que tem da infância, outros porque são engraçados e querem fazer rir, etc.etc.etc. Motivações que também são perfeitamente válidas. Esse negócio de que escrever é perigoso, que vai te tirar de um buraco fundo, que o coração sangra quando se escreve, é muito dramático, muito instagramável, impressiona quem ouve pela primeira vez e tal, pode até ser verdade para alguns, mas não esgota o tema e acho que contribui para uma visão romantizada que nem sempre faz sentido.




Escritor que ser lido (até porque ganhar dinheiro com livro no Brasil não existe), se isso é desejo de troca ou vaidade - talvez os dois - não importa, mas quem escreve para ninguém ler faz diário, não literatura
Bravo! Você toca em pontos muito válidos, especialmente quanto ao diálogo. Estou cansada do papo Substackiano de "escreva para você, sem se importar se será lido", porque só o fato de a pessoa publicar isso já mostra o desejo, ora bolas, de ser lido. É parte integrante do ofício, o deleite da brincadeira, o sabor da conexão. Quando escrevo para mim, sequer publico. Quando me atrevo a parir um texto para o "grande público" (infelizmente, meia dúzia de 2 ou 3 leitores), o desejo de suscitar alguma conversa a partir do que desenvolvi é inevitável.