Dois cigarros
Flavio Gomes
Dois cigarros, 112 páginas, é da Gulliver
O narrador, cujo nome não é revelado, conta a história de seu envolvimento com uma moça e das consequências imprevisíveis e caóticas desse relacionamento. O nome dela também nunca aparece, e Flavio Gomes lança mão de uma voz narrativa bastante original: o texto é em primeira pessoa, porém dirigido à personagem da moça, como se fosse uma carta, utilizando portanto ao mesmo tempo os pronomes “eu” e “você”.
A história começa no meio, sem apresentação.
Pego meu carro, pego a estrada, pego a entrada da sua cidade, pego a rua principal, sei onde você trabalha, acho que sei bastante de você, apenas buzino na porta.
Vale notar que o tempo verbal no presente só dura umas poucas páginas, logo o autor está escrevendo no passado, talvez sem perceber.
Esse homem e essa mulher passam uns dias num hotel em algum lugar de Minas Gerais. Depois disso, a narração vai e volta no tempo, mostrando outros momentos dos dois juntos, em São Paulo, em Heidelberg, em Paris. A moça aparece e desaparece da vida dele sem muitas explicações, o que o deixa confuso e angustiado. Ela é uma figura misteriosa.
Quando entrei, te vi numa mesa no pequeno salão de refeições cercada de pães, bolos e uma xícara enorme de café fumegante. Todo café deveria ser fumegante como esse, pensei na hora, mais um pensamento inútil, e você olhou para mim e sorriu com vergonha de tanta comida. Acenou, e acenei de volta. Aí você puxou uma cadeira da mesa, bateu no assento duas vezes ordenando que eu sentasse. Vem cá, não gosto de tomar café sozinha, nunca mais me deixa sozinha.
Mais ou menos na metade do livro, ela desaparece de novo, e logo em seguida ele vê na televisão francesa uma notícia sobre um grupo terrorista, durante a qual uma foto dela é mostrada. Atônito, com medo de que achem que tem algo a ver com terrorismo, ele decide voltar ao Brasil e se esconder, assumindo uma nova identidade, sendo que a nova identidade consiste em morar na praia e levar turistas para passear de barco.
Ficamos sabendo como ele fez para mudar de identidade, como era a vida dele antes de se envolver com a moça complicada, de onde vem seu dinheiro, como ficou sendo a sua vida nova, tudo contado num tom meio debochado e irônico.
o que eu tenho de fazer para salvar esse cara!, ele dizia para a mulher quando me levava para almoçar na sua casa no Brooklin aos domingos, uma casa enorme que um dia ele me contou, depois de beber dezessete chopes no Bar Léo, fora extorquida de um empresário milionário do Centro-Oeste, com uma incipiente carreira política baseada num discurso cristão, careta e moralista, flagrado por ele no Trianon chupando o pau de dois moleques musculosos num canto escuro do parque. Virou governador, inclusive.
Trabalhava num restaurante descolado, embora os donos fossem uns cretinos e o gerente, um ladrão, e pilotava um barco que em geral carregava gente bonita e endinheirada por águas tranquilas, contando mentiras em vários idiomas. Aprendi rápido as coisas do mar, eu que não sabia nada de barcos, lanchas, botes, bombordo, estibordo, proa, popa, porra nenhuma. Mas no Brasil se tira a carteira de Arrais-Amador sem precisar nem de aula prática, é só fazer uma prova escrita e acertar metade das questões, e sai a habilitação para comandar barcos como o meu. Eu achava que essa carteira de motorista de barco se chamava brevê, para mim tudo que não era para dirigir carro se chamava brevê, e se alguém da Marinha soubesse de minha completa ignorância oceânica jamais permitiria que eu levasse turistas num barco, mas no Brasil tudo se resolve.
Claro que a certa altura a moça reaparece para explicar essa história de terrorismo. É uma criminosa? É procurada? Os dois vão ficar juntos? Bolo de pamonha presta? O livro responde essas perguntas, depois de nos levar a estações de trem na Hungria e a concertos de violoncelo em Praga.
As aventuras frenéticas em locações exóticas formam um enredo pouco verossímil, meio sem-pé-nem-cabeça, ou seja, na verdade apenas servem de pretexto para o humor, que vem servido numa narração leve e despretensiosa, que não chega a ser engraçadíssima mas é ágil e divertida.
Uma machadada.
(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)
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Admiro bastante o Flávio Gomes, não perco um podcast ou programa com ele. Pena que não gosto do assunto em que ele mais domina, a Fórmula 1. Vou atrás desse livro.
Ok, mas não entendi o título?