Foi um péssimo dia
Natalia Borges Polesso
Foi um péssimo dia, 93 páginas, é da Dublinense
Nessa novela breve, divida em duas partes — “para minha mãe” e “para meu pai” —, a narradora Natalia rememora com bom humor alguns momentos de sua infância e começo da adolescência.
Era o final dos anos 80, e tudo isso era normal. Pessoas levavam a filha das outras para casa sem avisar, crianças passeavam na caçamba dos carros, ninguém usava cinto de segurança, ansiedade era coisa que se curava com chinelada e/ou benzedura. E o mais maluco de tudo: existia uma bala assassina, a terrível e deliciosa bala Soft.
O ponto de vista infantil traz o estranhamento e a ingenuidade que são a alma do livro. A família de Natalia se muda para uma casa pior; ela muda de escola; seus pais vão mal financeiramente; o casamento deles começa a ruir. Tudo isso é pano de fundo para as histórias que ela conta, que priorizam a piscina, o lanche, as amigas, a vez que a mãe a esqueceu na escola, a vez que o pai teve o salário inteiro furtado.
Muitos daqueles alimentos eram intragáveis para o meu paladar de criança, e olha que eu não era chata. Ou era? Eu só queria comer coisas gostosas, quem não quer? Mas não, tinha que tomar sal amargo para se desintoxicar, a mãe dizia.
— Do quê, se a gente só come a tua comida?
Ela nunca respondia.
Acompanhamos a jovem enquanto ela descobre como funcionam as amizades, os amores, o corpo, os sentimentos. Não chega a ser uma jornada de formação, é antes uma colagem de retratos que indicam um processo de formação.
Como os títulos indicam, na primeira parte ela fala mais da mãe e na segunda fala mais do pai.
Minha mãe não respondeu. Tinha a cara espichada, triste, como se desistisse da vida ali, naquele momento. Ou pior, como se tivesse se dado conta de que não desejava estar ali naquela situação.
ficou ainda alguns segundos com os dedos em pinça, pressionando entre as sobrancelhas. Parecia que desejava tirar dali algum pensamento. Apitou de novo, agora como uma panela de pressão. Acho que até vi vapor saindo das orelhas dela.
Meu pai tinha os seus quarenta e poucos anos, e isso quer dizer que muitas expectativas recaíam sobre ele
Ele parecia ser bem sabido para essas coisas da vida, mas muito burro para ganhar dinheiro
O livro é singelo e despretensioso, mas muito bem escrito e muito engraçado.
Nenhuma machadada.
(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)
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Achei uma ótima dica porque parece exatamente um livro que eu gostaria de ler bem agora 🙂🥹
Parece um bom livro para o público juvenil, um romance de formação adolescente. É ótimo quando um livro com essa temática consegue agradar a esse público: forma leitores.