Lorena
Tiago Amorim
Lorena, 140 páginas, é da Danúbio
Lorena ficou viúva há pouco tempo, e está se adaptando à nova vida. Acompanhamos tão somente algumas semanas, talvez alguns meses, de seu cotidiano e seu monólogo interior, e a narração mistura as duas coisas com habilidade:
De manhã eu estava cansada e lembrando de coisas desconexas. A Paulinha, filha da minha ajudante — agora o certo é chamar de ajudante, fiquei sabendo pela minha irmã, ou secretária do lar, ainda mais chique — então, a filha da Susana mora num quarto sem janelas. Eu não conseguia acreditar nisso, como assim ela mora num lugar sem janelas, perguntei três vezes, mas nem mesmo uma saída de ar no alto da parede, não, dona Lorena, é um quarto com banheiro, deve ter uns quinze metros, e só a porta de madeira. Ela nunca morreu sufocada? E deixei metade do café na xícara porque comecei a me sentir sufocada com aquela conversa. A senhora é engraçada, dona Lorena, mas eu estava horrorizada, ela não percebeu, fiquei com um pedaço de pão no canto da boca enquanto olhava para a enorme janela da cozinha. Fiquei dias pensando nisso, imagine viver num lugar sem janelas, mas até o porquinho-da-índia da minha sobrinha tem o direito de respirar numa gaiola. De noite, essa moça, o ar vai diminuindo, vai acabando, e ela com o peso do dia sobre o peito, a cabeça afundando no travesseiro e nenhuma preocupação ou angústia podendo sair pela janela. Não tem janela.
Junto com a empregada, Lorena dedica algum tempo a separar coisas que eram do marido para encaminhar para a doação. Vasculhando uma gaveta, descobre a foto de um menino que só pode ser filho dele. Evidência de traição.
A vagabunda da mãe dele se chama Soraia, que nome ridículo, ela nem é japonesa, porque a Soraia que conheço é japonesa, nenhum outro tipo de pessoa combina como o nome Soraia, mas a mãe dele é loira e alta, infelizmente bonita.
Não que o casamento com Luís fosse muito feliz:
eu me lembro, a cara dele me dizendo vamos montar um álbum só para as fotos das nossas viagens, e eu fingindo acreditar no projeto, sim, viajaremos muito juntos, e na verdade não passamos do Nordeste brasileiro, um horror, o clima quente odiável, as meninas muito mais bonitas do que eu, andando para lá e para cá de biquíni, ele fazendo de conta não prestar atenção nas pernas e peitos, eu disfarçando minha humilhação. Foi bem esta foto, esta aqui, sentados no restaurante do resort, o fotógrafo perguntou se podia registrar o momento, eu me perguntei que momento, e depois me perguntei por que registrá-lo, e o resultado é essa fotografia amarela em que a coisa mais alegre é o copo de cerveja na sua mão esquerda.
Como aliás atesta sua lembrança do velório:
Eu olhava para o relógio de dez em dez minutos, que tortura, meu Deus, ter que aparentar sofrimento, sou a viúva, eis o personagem. Me cansava manter o olhar triste de abandonada, talvez vocês não saibam, mas ele morreu há muito tempo, nesse caixão estão apenas os ossos.
Ela entra em contato com o rapaz e arranja um encontro. Pequeno spoiler, que não prejudica a leitura: Lorena e o filho de seu marido começam um relacionamento, que não dura muito tempo, terminando de forma dramática durante uma viagem a Montevidéu.
O grande mérito da obra é a profundidade da personagem. Lorena tem voz própria, tem personalidade, tem um mundo interior psicologicamente rico. Tiago Amorim escreve bem e consegue construir uma protagonista inteligente e interessante.
— Não esqueça da Catedral do Niemeyer, dizem que é linda! Lembra do que te falei: as pessoas sussurram pertinho das paredes, sabe? Você pede para o Luís ficar do outro lado e dizer se te escuta. Faça a experiência e me conte se deu certo (…)
E assim, de vestido curto e sandália baixa de couro, parecendo uma nordestina, pus os pés na calçada (…)
Continuei andando, andando, os prédios iguais dos dois lados da avenida, todos muito quadrados e tristes, o mundo inteiro vai ficar assim quando acabar a imaginação (…)
A primeira visão foi dos anjos pendurados, meu Deus, que horrorosos, parecem demônios cinzas e desfigurados (…)
Atrás de mim um casal alegre brincava com o efeito da parede, ah, o efeito que a Lara esperava que eu descobrisse com o Luís. Eram dois adultos infantis (…)
A parede estava lisa e o mármore mudo, parecia mesmo um convite. Inclinei o meu corpo para a frente, toquei as pedras frias com os dedos da mão direita, estou dando este aviso, eis aqui o meu segredo — e arrumei as mãos como se falasse a um ouvido. Falei tão baixinho, parecia menina com medo, e ninguém estava do outro lado para confirmar que ouviu. Depois saí da Catedral pensando, o que terá acontecido com as minhas palavras, e se ficaram presas no caminho, um ano depois uma velhinha está rezando e ouve aquela voz vinda do nada, depois dirá ao padre o Senhor falou comigo em língua estranha
Lorena tem contradições e tem consciências dessas contradições. Tem defeitos e consciência desses defeitos. Não foi escrita para ser simpática, ou representar uma causa, mas para ser real. E, por isso, é cativante.
Porque eu só soube mentir, entende? Lutando contra uma mãe narcisista, pisando na vaidade da Lara, usando um marido semimorto como pilar da melancolia. Só agora eu vi, só agora, quando atravessei a Avenida Corrientes e percebi que eu podia ser morta, e no jornal falariam de uma anônima, uma turista qualquer brasileira. Só agora eu toquei o meu próprio segredo, este que eu entrego por escrito: não desejo a lonjura do mundo, desejo vê-lo, e de um modo humilhante eu também admito, preciso ser vista.
Nenhuma machadada.
(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)
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Esse livro ficou em mim por vários dias. Fico feliz de nenhuma machachada ter lhe sido dada. Ficadia ofendida, porque ao final eu vi que conheci muitas Lorenas ao longo da vida e elas, ao menos, puderam abrir os olhos antes que fosse tarde demais.
Parece interessante! Anotado para leituras futuras🤗