Segundo colocado
no Segundo Concurso Afiado de Contos
Em segundo lugar no nosso Segundo Concurso Afiado de Contos ficou Selvagem, de Sonia Zaghetto.
Sobre a autora:
Instagram: https://www.instagram.com/soniazaghetto/
Website: https://soniazaghetto.com/
Substack: @soniazaghetto
Romance publicado aqui
O conto segue abaixo. Volto depois com alguns comentários.
Selvagem
Sonia Zaghetto
Fim de tarde. Meus pés pisam as folhas úmidas enquanto caminho na mata fechada. Desvio das urtigas, esmago saúvas e sinto o cheiro da baunilha no ar abafado. Piso com cuidado, atenta aos ruídos. Ela me espreita. Ouço seu respirar leve e quase posso ver o sangue que lhe pulsa nas têmporas, inundado de urgências. Ela está aqui, eu sei. Ergo a cabeça e farejo o ar. Atrás! Volto a cabeça para o filho que caminha a um passo de mim e tento avisá-lo. Tarde demais. O bote é certeiro, exato. Mal vejo uns olhos amarelos e manchas no pelo, e a musculatura poderosa já desaba sobre o pequeno, sem tempo para um grito. As presas se cravam no pescoço fino e a fera desaparece com ele em meio às folhas grandes como sombrinhas. Um uirapuru pia ao longe. Estou paralisada. O coração explodindo no peito.
Volto para os meus abrindo caminho entre os cipós. Um uivo escapa da minha garganta. A floresta não o ecoa. É um campo de batalha. Hoje foi meu dia de perder. Só me resta o rugido no peito.
O grito é alto o suficiente para eu despertar no cubículo escuro em que vivo agora. Suada, ainda zonza, sentindo o odor forte da mata, o esturro da onça, a força dos músculos inquietos. Respiro rápido, o peito sobe e desce no compasso da agonia.
Demora algum tempo para eu me situar. Se estivesse contando, saberia que dia é hoje, mas não conto. Dizem que nem tenho noção do tempo. Tolos. Meu tempo é o da morte do meu filho. Tempo presente.
Tenho sono pesado. Durmo com um prazer feroz. Nem as moscas que passeiam sobre os meus braços ou o barulho de algo sendo desmontado ao longe são capazes de me despertar da letargia autoimposta.
O sonho está presente todas as noites.
No outro dia, fico meio desfeita, sem forças.
Nascer na floresta é tragédia e sagração. Homem e natureza lutam pela sobrevivência. O olho estrangeiro vê paisagens formidáveis. Eu vejo apenas casa. Cenário de selvagerias e dramas, como toda casa. Estou longe da minha terra há tempo demais. Quanto mais o tempo passa, mais a percebo gravada em mim. Não a notava sob a pele. Hoje a sinto inquieta, aguardando.
A prisão aniquila. O corpo pesa e a irritação come a alma devagar. Saboreia um pedacinho todo dia, até a gente ouvir o conhecido uivo na noite. Dói ouvir aquilo, sabe? O som vai entrando pelo ouvido, mastiga o coração e se põe a pingar ácido no sangue.
Sento no chão e encosto a testa na parede fria. Às oito horas o zelador vai chegar. Espero. Vou ouvir primeiro o assovio à distância e os pés se arrastando ao ritmo da canção, depois o barulho das chaves abrindo a porta externa. Por fim, a voz esganiçada a me desejar bom-dia e perguntar como estou.
Ele chega pontualmente. Usa máscara e luvas de borracha. As luvas amarelas são ridículas. Estou em silêncio, imóvel, os braços caídos ao lado do corpo.
“Bom dia, Donna. Trouxe a sua comida”, sorri.
Não respondo. Nunca respondo. Todos os dias ele traz o café da manhã, o almoço e a janta. Continuo muda. Não me mexo para pegar. Ele aguarda um pouco. Pela fresta da porta, vejo que se apoia numa ou noutra perna. Observa a mim, a comida e o interior do cubículo onde moro.
Ele entra e está a dois passos de mim. Quando me fala, sua voz tem um tom amigável. Ele sempre fica um pouco mais de tempo. Vale-se de pequenas desculpas para esticar a visita: uma torneira pingando, uma lâmpada queimada, retirar o lixo. Por vezes traz, junto com a comida, algum mimo barato, geralmente uma fruta. Eu o ignoro. Olho para ele e depois para a janela numa tentativa agoniada de que ele entenda que já não quero viver. Gostaria de poder dizer abertamente das minhas dores, mas não consigo.
Escuto seu suspiro no instante em que deposita o prato.
Quando sentir fome eu o pegarei. Não agora.
Não sei quando comecei a morrer. Talvez no meio de janeiro do ano em que vim morar aqui.
Encosto a testa no vidro que me separa do mundo e me demoro nas colinas da Califórnia. Ainda estão verdes neste fim de primavera. Nada me dizem.
Eu vim do reino da fartura líquida a se infiltrar no corpo. Aqui a água é pouca. Sinto que seco no mesmo compasso em que meu espírito desidrata nesta terra estranha.
Penso em escapar, mas um torpor me vence.
Gosto de silêncio, mas não deste – pegajoso e incômodo.
Toda a minha liberdade foi tolhida de uma vez, de chofre. Nunca me preparei para isso porque não é da minha natureza o isolamento. As paredes são garras em torno de mim. Desejo pô-las abaixo, as indesejadas.
Eu e meus vizinhos partilhamos a prisão. Os contatos se limitam a cruzarmos olhares. Temos um pacto não verbal de compartilhar, no máximo, a beleza dos jardins bem cuidados, os aposentos razoavelmente limpos. Sem amizade, sem contato físico, sem troca de palavras. Aqui é um lugar de estrangeiros. Não falamos a mesma língua. E se falássemos, de que nos adiantaria? Conversa não extingue dor. Nem cogitamos.
Só não contávamos com as paredes a nos trair. São finas o suficiente para que eu ouça o que acontece nos espaços ao lado. O silêncio favorece a escuta. De madrugada ouço o vizinho a se arrastar de um lado para outro. Não sossega. Farejo sua agonia. Adivinho seu desejo de escapar, sentir o orvalho sobre a cabeça. No compartimento à esquerda há os suspiros tristes de um outro. Ele levanta e bebe um pouco d’água. Talvez queira companhia. Vive só, como eu. Certamente os outros também ouvem o meu desconforto, mas nenhum de nós se importa ou se compadece.
Deito. Durmo de imediato.
Estou em casa.
Respiro forte perto de outra boca. Um sexo selvagem, rápido. Amor vem depois, quando enfio os dedos nos pelos do peito dele. As unhas embaraçam nos fios negros. Ele gosta, geme.
Sinto-lhe os músculos do braço retesados. Uma força bruta, de bicho.
Sobre nós uma luz cegante, que cheira a liberdade.
Desperto ofegante. A escuridão ri de mim.
Viro para o outro lado e deixo apagar-se mais um pouco do que sou. Frágil luz a se desfazer.
Acordo horas depois. Pisco diante da luminosidade morna.
Levanto sem vontade. Cochilei perto da porta.
Logo o zelador estará aqui de novo.
Ele chega e no seu rosto há algo que não decifro.
“Donna, você está deprimida, não é?”
Não reajo.
Ele aperta os lábios.
“Eu trouxe a sua comida.”
Permaneço calada.
Ele volta, apoia as mãos no batente e fala como quem pede desculpas:
“Donna...”
Não sei se foi a expressão dele, mas a dor no ventre repentinamente cresce e me domina a ponto de não evitar o gemido. Cambaleio, apoio as mãos na parede e tento sentar no chão. Não consigo. Caio e ouço o ruído seco dos meus ossos contra o piso.
Ele se aproxima com uma expressão aterrorizada.
“Ah, meu Deus! O que foi, querida?”
O mel das palavras me vence. Inclino a cabeça, enquanto algo escorre pela minha testa.
“Deixa eu ver. Está doendo, não é?”
Ele se agacha diante de mim, apoiado nas pontas dos pés. Estende as mãos com cautela, toca meu rosto e me mostra o dedo manchado de vermelho.
“Vai precisar de alguns pontos”, diz, franzindo a testa. O sangue começa a pingar do meu queixo.
A pressão no ventre ressurge com violência. Meu grito alto o assusta e ele perde o equilíbrio. Num gesto automático, suas mãos se apoiam na minha barriga inchada. A dor me cega. Bato com violência na mão dele e me encolho no chão, gemendo alto.
Ele se levanta rapidamente.
“Vou telefonar agora para o seu médico.”
Sai apressado. Noto que manca um pouco e suas costas estão ligeiramente curvadas. Deve estar sobrecarregado. Os outros funcionários são preguiçosos, uns encostados. Ele, não. Sempre nessa movimentação febril. Aqui e ali, catando o lixo que as crianças deixam nas áreas comuns. Daqui eu o vejo limpando o chão, recolhendo embalagens esquecidas, lavando vidros.
II
A porta range quando o homem moreno a abre. Hesita um pouco e bate com o nó dos dedos na parede.
“Posso entrar, doc?”
“Já entrou, Manoel”.
De costas, o médico levanta a mão e faz um sinal para que o zelador entre de vez.
“Como ela está?”
“Donna? Dormindo. Tive de sedá-la um pouco para fazer a sutura. Estava muito agitada. Quase arrancou a minha máscara quando dei a anestesia local. Não tive opção, estava sangrando muito. O corte foi feio.”
Espia o corpo deitado.
“Nem dormindo ela parece ter paz.”
“Nenhum de nós sabe o que é isso.”
“Obrigado por cuidar dela.”
O médico não levanta a cabeça. Sua voz soa abafada atrás da máscara.
“Não se deixa um paciente sangrando. Ainda bem que a administração tem um lugar preparado para essas pequenas emergências. Se tivesse de levá-la ao hospital seria complicado.”
O médico continua a dar os pontos na testa de Donna. Suas mãos se movem rapidamente. Com a mão esquerda usa a pinça para pegar a pele e, com a direita, segura o porta-agulha. A agulha mergulha na pele, a meio centímetro na borda da ferida. Emerge a meio centímetro da outra borda. O doutor cantarola baixinho enquanto enrola o fio no porta-agulha e dá os nós – um, dois, três. Pega a tesoura e corta o fio. Um centímetro depois, começa o ponto seguinte.
Someone told me long ago
There’s a calm before the storm…
O zelador acompanha tudo quase sem piscar.
“O que o senhor está cantando?”
“Uma canção antiga. Não é do seu tempo.”
“Doutor, o que ela tem?”
“Vou ver o resultado dos exames daqui a pouco. São os que ela fez na semana retrasada. Já vão enviar.”
“Já são quase cinco horas. O senhor toma um café comigo quando sair? Aí poderemos conversar.”
O médico dá de ombros.
“Pode ser.”
Em dez segundos o zelador está na porta.
“Vou buscar o café e esperar no banco perto da janela da Donna.”
Arranca as luvas e as joga na lixeira, sem esperar pela resposta.
Uma hora depois, os outros funcionários levam Donna de volta e descontaminam a salinha. O médico retira máscara, luvas, avental, touca e protetores de sapatos. Põe tudo na lixeira. Suspira diante da porta. Na sala ao lado, lava as mãos e veste os jeans e a camiseta. Calça os sapatos e pega a bolsa dependurada no gancho. Logo ele está na alameda estreita onde Donna vive.
O zelador está sentado no banco. Segura um copo de café da Starbucks. Seus olhos riem quando avista o médico. Aponta para o saco de papel. O doutor o cumprimenta com um levantar de sobrancelhas e pega a embalagem. Usa o copo para aquecer as mãos e senta no banco da frente.
É aquela hora da tarde em que os raios do sol incidem de um jeito especial, dourando folhas e relva.
O médico bebe dois goles e estica as pernas.
“Diga...”
“Donna. O que ela tem?”
O médico o encara com firmeza.
“Você gosta dela.”
“Muito.”
“Você sabe que ela tem um tumor no útero, não é?”
O rapaz fica ligeiramente pálido.
“O senhor vai recomendar uma operação?”
“Nessa fase não tem como operar. Ela não aguentaria...”
“Por causa da idade?”
“Também. Ela não aguenta uma cirurgia de grande porte por conta do avanço da doença, da idade e da fragilidade do organismo. Mas nem vale a pena tentar. Já se espalhou por outros órgãos. Há metástases.”
O médico parecia calmo.
“É o fim, então?”
“Sim.”
“Nenhum tratamento? Nada?”
“Seria arriscado e muito doloroso. Na verdade, já está sendo. Ela deve ter dores fortes e aquela barriga enorme tem um nome: ascite, barriga d’água. Não vamos submetê-la a mais sofrimento. Não vai trazer benefício algum para ela. Os opioides ajudam, mas é câncer. Câncer dói...”
“Eu tinha medo que fosse isso. O senhor acha que ela sabe?”
“De alguma forma, eles sempre sabem. Antes da gente, já sabem.”
O zelador apoia os cotovelos nas coxas e põe as mãos cruzadas sob o queixo. Uma ruga surge entre as sobrancelhas.
O médico o observa. Vê a pulsação da veia na testa e enxerga sob a pele as larvas de um desgosto brando e amordaçado.
“Olha, já vi várias vezes as pessoas se mantendo vivas à espera de algum evento. Então elas morrem.”
“O que acontece com elas?”
“Acho que desistem. Chegam a um ponto em que tudo talvez deixe de fazer sentido. Meu pai foi assim. Estava internado e me implorou pra voltar pra casa e comer um bolinho de carne que minha mãe fazia.”
“Ele comeu o bolinho?”
“Comeu. Morreu na mesma noite. Em paz.”
O zelador inclina o corpo para a frente, apoia os antebraços nas coxas e cruza as mãos.
“Doutor...”
O médico o encara, piscando devagar.
“O senhor acha que Donna já desistiu?”
“De viver? Não totalmente, mas falta pouco. Pense na vida dela. Sozinha em outro país, enclausurada num lugar apertado, sem amigos, sem parentes. Há quanto ela está aqui? Uns dezesseis anos? Então, imagine o que são pelo menos quinze anos nessa rotina árida.”
“O que ela está esperando?”
“Como saber?”
Por alguns segundos, o médico sente dó do rapaz cabisbaixo.
“Não fique assim. Vou falar uma platitude, mas vá lá. Tudo isso faz parte do ciclo da vida. Vai acabar para nós também.”
“O que me incomoda é a tristeza dela. É pontuda, sabe? Parece que fura a pele. E ela não fala. Então nunca sei ao certo como ela se sente.”
Um novo silêncio denso, o médico levanta.
“Antes de ir, doutor.”
“Diga...”
“É um outro assunto.”
O médico permanece de pé.
O zelador esboça um sorriso e a voz soa ligeiramente trêmula quando pergunta.
“O senhor acha que está perto o dia em que essa loucura toda vai acabar? Eu ando com medo. O ICE está por aí. Eu sou sozinho com a minha cara de latino.”
“Mas você não está ilegal...”
“Eles não se importam.”
Colocou o olhar no chão e engoliu em seco antes de prosseguir.
“Eu tenho medo do mundo, deste tempo em que eu vivo. Acho que já não sei viver neste nosso tempo”.
O médico ergue o copo e fala com a boca colada no plástico da tampa.
“Hic sunt dracones.”
“Desculpe, não ouvi o que o senhor disse.”
“Nada importante. Resmungando em latim, coisa de maluco.”
“Mas o senhor acha que melhora?”
O zelador continua a esperar. Uns olhos enormes, tingidos de expectativa, que por alguma razão o irritam. Não consegue evitar a rispidez.
“Não sei, Manoel. Ninguém sabe. Eu perdi a esperança. Talvez um dia seja vencida essa tendência à autodestruição, mas não arrisco dizer quando. Eu e você provavelmente já estaremos mortos. Agora deixe de bobagem e vá pra casa.”
O zelador baixa a cabeça. Suas orelhas vão do rosado ao púrpura em segundos. O médico adoça a voz.
“Desculpe, exagerei. Você é um bom rapaz. Estou cansado e fico um pouco irritado ao falar deste assunto. Vivemos uma espécie de overdose, entende? É tanta coisa acontecendo há tanto tempo. Satura.”
“É que eu tenho a impressão de que nunca vivi direito. Não é igual a vocês, mais velhos, que se esbaldaram pela vida. Woodstock, hippies, aquelas coisas coloridas dos anos 80. Perto disso, a minha parece oca, um não-viver em marrom e bege.”
“O passado parece bonito porque o vemos de longe e nos fixamos num quadradinho. Woodstock e a desgraça do Vietnam ocorreram ao mesmo tempo, sabe? O ser humano é um primata mostrando os dentes. Aprendemos a pensar e chamamos isso de civilização. Deveríamos dizer que é apenas verniz.”
III
Manoel – o zelador – é encantador. Tem uma cabeleira escura e densa, com dois redemoinhos no cocuruto. Quando sorri, o que ocorre muitas vezes, os olhos castanhos brilham de um jeito travesso e o fazem parecer um menino. Sua mãe morreu cinco anos depois que ele nasceu. O pai durou mais dois meses.
Para o avô, que o criou sozinho, sempre foi o ai-Jesus, o brilho verde no fundo da caixa de Pandora. O velho trabalhou até os 80 anos. Orgulhava-se de jamais ter faltado ao serviço, falava devagar, pronunciando todas as sílabas, e ensinou o neto a resolver qualquer problema com uma fórmula por ele considerada infalível: calma, prudência e capitalização.
O nome do avô era Otílio, mas Manoel o chamava Jerry, sem razão alguma para isso. Quando ele adoeceu, o neto tinha doze anos de idade. Pegou as mãos do velhinho e as segurou durante a noite inteira. Cantarolou velhas canções, imitou o ilustre Dr. Filgueiras e contou um segredo guardado desde os oito anos: a avó desbocada lhe ensinara várias piadas do Bocage. O avô riu até tossir, os olhos inundados de lágrimas.
“Você sabe quem é o Bocage?”
“Agora sei, né? Tive de pesquisar na internet. No começo achei que era um humorista ou algum cantor famoso da sua época de juventude. O sacana...”
O avô suspirou.
“Oh retrato da morte, oh noite amiga, por cuja escuridão suspiro há tanto!”
O neto ralhou:
“Credo, vô, não fala assim.”
O velho ergueu a cabeça e deixou escapar uma gargalhada.
“Perdoem, musas e pastoras, eu falhei.”
“Não entendi, Jerry.”
O avô apontou para a estante.
“Traga aquele livro, o verde.”
O velho percorreu as páginas devagar.
“Cuide bem dele. Não tem mais deste tipo hoje em dia. Foi o único objeto que a sua avó trouxe do Brasil. Antes dela, o bisavô o trouxe de Portugal, também de navio. Se há algo nesta família que une os mortos e os vivos é este livro. Para lê-lo é que lhe ensinei português.”
“Eu só falo português com você”, resmungou.
“Você vai aprender a gostar da nossa língua de família, cheia de sonoridades e sons anasalados, capaz de durezas e de deitar açúcar na boca. Honre-a nesta terra que jamais foi minha.”
“O senhor fala como se estivesse escrevendo algo ou lendo alguma coisa.”
“Não sei se isso é um defeito”, retrucou o avô.
Ajeitou o cobertor que cobria o velho.
De madrugada, Otílio pediu água. O neto levantou-se da cadeira onde, de olhos abertos, via as sombras se projetarem na parede, fazendo desenhos engraçados.
Passou os braços em torno do velho e encostou o ouvido no peito ossudo. Um ritmo calmo o embalou. Desde a morte da mãe, era a primeira vez que ouvia o coração de outra pessoa.
O avô o afastou com cuidado.
“Vá descansar.”
“Está bem.”
O avô se foi naquela noite.
A Manoel restou a companhia do tio-avô Frederico, o Fred, um tipo ranzinza e solitário cujos prazeres na vida se resumiam a pizza margheritta e leituras de Schopenhauer. Só tinha em comum com Otílio a inteligência e a honestidade. O irmão o escolhera como tutor porque lhe conhecia as habilidades de investidor. Ele ensinaria ao sobrinho-neto os segredos das finanças e garantiria ao garoto a essencial capitalização. Sobre calma e prudência não convinha especular.
Ao contrário do calado Otílio, Frederico desvendou o mundo a Manoel, enchendo-lhe a cabeça de detalhes, anedotas e causos.
“Acho que eu gostaria da vida antiga.”
“Era uma boa vida.”
“Tio...”
A voz de Frederico se tornou cortante.
“Não adianta sonhar com isso, garoto. É uma vida que não volta. Sabe por que parei de ver filmes antigos? Porque já não é a minha realidade. Melhor não alimentar ilusão.”
“Algumas coisas ainda são iguais.”
“Ah, sim, amor de mãe, suturas, necessidades fisiológicas e autoboicote. Sete dias entre dor e necessidade. Aos domingos, tédio.”
“Suturas são eternas. Sabe que eu pensei isso enquanto o médico dava pontos na minha amiga Donna?”
“Como ela está?”
O rapaz tentou soar displicente, mas a boca se retorceu. O tio o observou com os olhos semicerrados.
“Ela vai morrer logo.”
“Estamos todos velejando em direção ao naufrágio.”
“Não é hora de filosofia.”
“Ao contrário. Esta é a hora exata para filosofia. Mas não vamos discutir isso. O que ela tem?”
“Câncer. O doutor falou que ela está com a barriga cheia de líquido. Já anda com dificuldade, vive cansada e entupida de remédios”.
“Despeça-se dela. Deixe-a ir. É horrível querer que alguém fique aprisionado num corpo só por causa da gente.”
“Ela é a minha única amiga...”
“É egoísmo, o tal do apego. Chame do que quiser, mas aceite que é você em busca de satisfação para as suas necessidades. E há mais uma coisa que não entendo neste seu relacionamento: ela nem fala com você! Ela pode te odiar e você nem sabe.”
O rapaz ficou vermelho. Quis falar sobre amores silenciosos, mas a timidez impediu.
O tio se mexeu na cadeira.
“Não adianta, Manoel, a luta é inglória. Você vai ajudar a prolongar a vida dela mas no fim será derrotado. Libertar o outro é presente raro.”
Deu dois tapinhas no ombro do rapaz e saiu da sala com seu passo miúdo, arrastando os chinelos.
Duas horas depois, um estalo seco o fez erguer a cabeça.
“Tio?”
Levantou devagar e bateu com os nós dos dedos na porta.
“Está tudo bem, tio?”
A porta rangeu quando ele a abriu.
Na semiobscuridade viu os olhos de Fred muito abertos e o braço caído ao lado da cama. Tocou-lhe os pulsos inertes e fechou-lhe as pálpebras com suavidade. Tentou regularizar a respiração e segurar os soluços que vinham em ondas. Devagar, caminhou até a poltrona do avô, acomodou-se nela e girou o pescoço até encostar o nariz no xale que cobria o encosto.
Abriu o livro verde, ainda cego pelas lágrimas.
Já sobre o coche de ébano estrelado,
Deu meio giro a Noite escura e feia,
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!
IV
Do meu cubículo espio o zelador varrendo a calçada do prédio. Passou uns dias sem vir, mas agora está de volta.
Ele ergue a cabeça para cheirar o ar e me vê. Acena, abanando a mão de um jeito desengonçado.
“Bom dia, Donna!”
Permaneço imóvel.
Ele se esforça para ser agradável. Vejo que oferece doces para a vizinha e em vão puxa conversa conosco, os velhos isolados. Dá um alô caloroso ao chegar e se despede com tchauzinhos ao fim do expediente. Nenhum de nós responde. Só um morador lhe dava um bom-dia metálico, um vizinho louro que vivia no prédio ao lado e morreu no ano passado.
O rapaz trabalha sem descanso. Cabe a ele recolher a comida e entregá-la a nós. Eu e os vizinhos não reclamamos: o que ele trouxer é bem recebido. Nenhum de nós conseguiria ir buscar algo para comer. Estamos velhos, aceitamos de bom grado. Eu mesma nem sei o que mastigo. Não faz diferença.
Pego a comida. Como rapidamente. Mal sinto o gosto.
Não há coisa alguma para fazer. Volto a deitar. Persigo os sonhos.
Durmo de imediato, como sempre.
Corro pela mata fechada, os galhos batem na minha cara. Algo me arranha. Não dou atenção. Tenho outras cicatrizes. O sangue corre rápido nas minhas veias. Estou viva. O cheiro da minha terra me embriaga. As folhas úmidas apodrecidas sob os meus pés têm um aroma adocicado. Escuto os pássaros na mata. São muitos.
A floresta é antes de tudo cheiro e gosto. Sinto na boca o sabor das frutas. É verão. Estou roendo um caroço de tucumã. Os fiapos entram nos meus dentes e quero tirá-los. Meu filho está comigo. Come bananas e me oferece uma. Sinto rolar na língua o doce das frutas. Ponho o filho no colo e o abraço. Ele se aconchega e dorme enquanto cato piolhos na sua cabeça coberta de fios escuros e brilhantes.
Desta vez acordo devagar, ainda sentindo o calor do pequeno corpo de encontro ao meu. Choro. Do meu jeito, sem lágrimas, apenas com grunhidos baixos que se perdem no silêncio dos prédios. Se ouvem, os vizinhos não dão quaisquer pistas. Cada um carregando sua carga, roendo unhas na madrugada.
Lá fora, vejo a silhueta dos bancos onde só o zelador e o médico agora sentam. A chuva aos poucos enferruja os brinquedos dos parquinhos infantis.
Não sei viver neste cenário desconhecido. Nunca soube. Trago uma bigorna sobre o peito. Ela me impede de respirar neste lugar. Sinto vontade de gritar a todo instante, de dar mordidas e de roer a corda da vida até senti-la esgarçar entre os meus dentes.
Nunca havia percebido, antes, como as coisas miúdas da minha antiga rotina eram essenciais e preciosas. Vento agitando árvores, uma flor minúscula pelo caminho, as brincadeiras tolas do meu filho. Estendo as mãos na escuridão para recolher meus prazeres mínimos e os deposito, reverente, no baú das coisas banais e valiosas em que armazeno a existência.
Paredes descascadas. A pintura verde se rachou e vários pedaços caíram. As manchas de infiltração são bem visíveis. Se a decadência tem cheiro, é o do meu cubículo.
Tento dormir.
Desaba a chuva. Cada gota morna escorre pelo meu corpo, causando arrepios de prazer. Abro a boca e deixo os pingos chegarem à garganta. Meu filho me imita.
Então grito. De prazer, de gozo, de saudade.
Acordo com os meus gritos. Um dos vizinhos me ouve e também grita. É o velho pescoçudo que vive à minha direita. Mantenho as pálpebras fechadas. O sonho precisa continuar. Ouço vozes. Faço um último esforço e logo desisto: abro os olhos. O médico está debruçado sobre mim.
A luz branca do ambulatório me incomoda. Algo gelado entra nas minhas veias. Quero levantar, mas o corpo está pesado. Emito alguns grunhidos, ninguém dá atenção. As pálpebras se fecham. O remédio me faz entrar e sair do sonho.
As duas cenas se sobrepõem. Floresta. Ambulatório. Árvores. Seringa. O médico. Um recém-nascido mamando nos meus peitos cheios. Bananas, araçás, mangas. Cheiro de sangue. Os bracinhos finos se arrastando pelo chão enquanto a onça desaparece com meu filho no mato alto.
Não sei quem me trouxe de volta para o cubículo.
Na manhã seguinte, quando o zelador chega, já estou acordada há muito tempo, aguardando o que não sei.
Ainda sinto na boca o gosto das frutas.
Ele me cumprimenta, compadecido.
“Bom dia, Donna.”
Silêncio.
Morde os lábios e abre o pacote de comida. É visível o seu esforço para dar um timbre despreocupado à voz.
“Ânimo, Donna. Olha, o doutor disse que você está muito magrinha. Conseguiram carregar você sem esforço....”
Baixo a cabeça.
“Está deprimida, não é?”
Não olho para ele. Prendo os olhos numa aranha que passeia no teto. Tece uma teia fina e está barriguda, com os ovos quase despencando. Logo nascerão centenas de pequenas aranhas que vão se aventurar pelo mundo.
O zelador continua a tagarelar sem interrupção.
Abre a caixa de remédios e, com uma colher, esmaga dois comprimidos na minha comida.
Ele me estende o prato.
Quando sai, noto que deixou chocolates.
V
Preciso fugir, andar lá fora, correr um pouco, quem sabe. Não posso. Há quanto tempo já não é possível sair. Impotente sou.
A liberdade me espreita atrás da porta, da janela, da grade. Na prisão que é o meu lar, repito gestos. Acordo, mastigo, bebo água, contemplo a paisagem, durmo de novo, coço a cabeça, urino.
A vida escoa sem sentido à margem do meu mundo, agora tão distante. Eu o desejo, quero me lambuzar nele, lamber-lhe a boca de frutas suculentas, sucumbir ao seu calor tirânico.
O retiro forçado devorou meu ânimo e vergou meus ombros. Aos poucos esqueço a doçura do contato físico, do calor da pele alheia a se espalhar pelo corpo, de sentir os pelos arrepiados sob um toque.
O zelador, o médico, os poucos funcionários do lugar em que vivo ajudam a manter a minha vida. Eu deveria ser grata. Não consigo.
O zelador hoje me disse coisas estranhas.
Ao trazer a comida, sentou-se no chão do meu cubículo. Não me movi.
Durante muito tempo, não disse palavra.
Por fim, aproximou-se e tocou meu rosto. Reagi ao contato com um pequeno choque. Tentei escapar da mão dele, mas o garoto é teimoso. Passou a ponta do dedo indicador no meu nariz e me disse com brandura: “Eu vejo você. Enxergo bem lá dentro, no poço escuro das horas.”
Assim que ele saiu, mergulhei nos sonhos.
Estou nadando no rio. A vegetação das margens tem aningas, palmeiras de açaí e buritizeiros. Aqui e ali, ipês florescem. Gosto de ver o ouro em meio ao verde-escuro. É fim de tarde e as águas se convertem em espelho.
Eu encaro o rio, flutuo, mergulho, aumento a velocidade, quase me afogo. A água é morna. Sinto um medo ancestral e um prazer que me faz tremer a carne.
VI
Pontualmente às 17h Manoel despe o macacão azul desbotado e retira as galochas brancas. Numa sacola plástica põe as duas luvas de borracha.
Está parado em frente à janela de Donna. Ela olha diretamente para ele, sem qualquer expressão.
“Tchau, Donna!”, grita com alegria genuína.
Ela vira as costas e entra.
Ele aguarda mais um pouco, até o sorriso se desfazer. Em seguida caminha pela alameda. Antes de dobrar a esquina, vira a cabeça e acena mais uma vez. Para ninguém.
Às seis e quinze, põe a chave na fechadura e a gira. Nada. Força um pouco e ela cede. Pendura o casaco no gancho. Rápido e preciso, com a exatidão automática que a repetição concede.
Deixa que a água lhe escorra pelas costas.
Quinze minutos depois está com a toalha enrolada na cintura, enfiando a cabeça no freezer e tentando escolher algum pacote de comida pronta.
“Palak paneer! Obrigado por essas minúsculas graças, senhora Afrodite”.
Seu olhar pousa na poltrona vermelha do avô.
“Sabe, Jerry, hoje vi a Donna. Acho que ela está no limite. A gente sabe como ela se sente. Coitada, já está grisalha, suja e anda com muita dificuldade. Aquilo lá não é vida. Sozinha, longe de casa, há tantos anos naquele cubículo. Alguma coisa me travou o estômago. Ainda está aqui, presa na minha garganta.”
Sai do quarto ainda com os cabelos úmidos e uma bermuda xadrez. Abre a geladeira quase vazia e pega a última cerveja.
“Ah, Jerry, como sinto a sua falta. Amanhã é dia de fazer compras. Queria ter o direito de ter preguiça.”
Com o prato nas mãos, sorri à lembrança do avô chegando em casa com as mãos cheias de sacolas. Cresceu com aquela imagem. O velhinho magro, carregado de sacos plásticos, entrava silenciosamente e limpava as compras com tal elegância que dava gosto apreciar.
Liga a pequena tela e entra no sistema de aulas. Põe os fones, estica as pernas e equilibra o prato no colo enquanto ouve a aula. Mastiga a comida fazendo anotações.
Duas horas depois, envia o arquivo com as respostas dos exercícios. Retira os óculos e esfrega os olhos com os dedos médio e indicador.
“Um semestre. Só um semestre. Não vou desistir, Jerry. Falta a capitalização”, murmura enquanto movimenta o pescoço até ouvi-lo estalar.
Diante da estante, leva a mão até o ombro dolorido e o massageia um pouco. Seu olhar pousa no livro verde. Está coberto por uma fina camada de poeira, acomodado entre a fotografia dos avós e um objeto que havia pertencido à sua mãe, um globinho de vidro do Museu Van Gogh.
Dentro dele, um minúsculo boneco pinta uma tela. Se alguém virar o objeto, flocos brancos caem sobre o pintor, simulando neve. A mãe o comprou na viagem de lua-de-mel, contou-lhe o avô. Queria dá-lo ao filho que esperava. Junto com o livro verde, o globo constituía seu tesouro familiar. Se um dia tivesse filhos, daria a eles.
A chaleira elétrica desliga-se com um ruído seco. Põe o saquinho de chá na caneca e despeja a água fervente. O aroma do chá preto enche a cozinha e o faz fechar os olhos. Manhãs de domingo, a voz do avô, panquecas com maple syrup e mirtilos.
Na poltrona, abre o livro. Perde detalhes, sutilezas que à juventude escapam e o fio de anacrônicas palavras. Ainda assim, não deixa de se admirar por estar atado a um homem nascido há mais de 250 anos. Sacode a cabeça, rindo de si mesmo.
“Deus me livre da boca dos bons poetas. Continuam a falar mesmo depois da morte, as teimosas”, discursa em voz alta. De vez em quando precisa ouvir alguma voz humana movimentando o ar em torno dele, mesmo que seja a sua própria.
Vira a página e seus olhos se estreitam. Uma ruga surge entre as sobrancelhas.
De morte, por piedade hoje te firo.
Fecha o livro devagar. O sono demora a chegar. No escuro, escuta a madeira rangendo e pode ouvir os percevejos escalando as paredes.
VII
Não mais resisto a essa prisão. Já a odiei por tempo demais. Agora estou velha e meu corpo visivelmente se desfaz. Eu costumava deixar uma raiva surda se apoderar de mim quando pensava nos meus parentes distantes, na minha gente comendo junta, barulhenta, indisciplinada. Sentia falta de seus ruídos de mastigação, dos dentes rasgando a comida. Não mais.
Durmo de novo.
Estou na mata sombreada e emprenhada de aromas. É noite e sinto a brisa fresca. O sereno pinga em gotas miúdas, as aves silenciam e as árvores exalam aromas de óleo.
Os bichos saem para caçar no fundo da noite negra. Pacas, macacos, onças, tatus, veados, jacarés, cobras e cotias se esgueiram no breu da mata.
Em torno de mim zunem carapanãs, piuns e maruins. Um deles me pica o braço. Acordo.
O zelador está ao meu lado. Parece calmo enquanto injeta algo frio no meu braço.
“Sshhhh, Donna. Ela já vem. Veja, já está aqui. Uma borboleta gigante, com asas de um azul brilhante. Não se preocupe. Ninguém vai descobrir. Sou prudente.”
Por que estremeço diante dessa frase?
Ele sacode o aparelho junto ao meu rosto com um riso maroto, dá uma piscadela e completa: “Outra coisa que jamais muda no mundinho é que o dinheiro compra coisas inimagináveis, inclusive passagens para o reino das impossibilidades.”
Um arrepio me percorre.
Seus olhos se fixam nos meus.
Pela primeira vez o enxergo. Lá está o amor na galáxia da íris. Não o amor das delicadezas e cuidados, mas um fio agridoce, de sal e de madrugada. Algo bom e assustado brota no meu peito, mas não consigo falar.
Minhas pálpebras estão pesadas, a moleza morna se espalha rapidamente pelos meus membros. É agradável. Uma brisa sopra no meu rosto. Abro os olhos com dificuldade. O zelador me abana com um pedaço de papelão e vejo a aranha passeando no teto.
“Shhhh, Donna”, a polpa dos dedos dele me acaricia. Sou toda feita de chumbo e emoção. Reúno as forças e movo a cabeça até encostar nas mãos dele.
Há um bafo quente na boca da mata. Trago meu filho pendurado nos pelos do meu peito. Corro com ele pelo meio das folhas densas. Sou rápida e me esgueiro. Ela está perto. Ouço seu respirar leve e quase posso sentir o fluxo do sangue que lhe pulsa nas têmporas, inundado de urgências. Respiro devagar e aperto o pequeno contra o meu corpo. Um ruído de folha esmagada é o sinal que espero. Não hesito. Meus braços agarram o galho à frente. Em segundos estou no alto da árvore. A fera esturra lá embaixo. A vitória de hoje é minha.
Sinto as primeiras gotas da chuva e uma alegria selvagem me brota no peito.
Em algum lugar, uma voz recita, calma:
Cai no meu coração nova semente;
Já me não vale um ânimo inocente;
Gritos da Natureza, eu vos escuto!
Não compreendo.
Uma noite sem estrelas desce sobre mim. Aperto meu filho no peito. Sinto seu pequeno coração bater junto ao meu até sermos engolidos pela profunda quietude que agora me rodeia.
A porta se fecha suavemente.
Daqui a pouco um alarme soará, estridente. Os outros bichos se moverão inquietos. Não os ouvirei. Meus ouvidos nada ouvem.
Morte, morte de amor, melhor que a vida.
Comentários
O conto investe no caminho menos explorado e um tanto arriscado do narrador não-convencional. Cada leitor perceberá em um momento diferente que a história está sendo contada não por uma pessoa, mas por um animal, uma fêmea, creio que de alguma espécie de primata, não fica claro. Quanto mais tempo o leitor demorar para perceber o truque, maior será a surpresa e mais eficaz o recurso.
A narradora alterna momentos de sonho, em que revive sua vida “selvagem”, na floresta, com momentos de vigília, nos quais percebemos que ela se encontra presa num zoológico. O contraste entre a vida livre e a vida em cativeiro é a fonte de drama do conto, e a autora evita cair na armadilha de exagerar a segunda situação, o que ficaria piegas.
Em vez disso, a macaca (?) é bem tratada pelo zelador Manoel, que se compadece de sua saúde deteriorada e a chama de “Donna”. O nome é estranho porque o zoológico fica nos Estados Unidos, o que permite que seja feito um paralelo com a situação dos imigrantes ilegais. Achei esse aspecto um pouco forçado, mas é questão de gosto. A eutanásia deixa o final bem melancólico.
O conto também aborda a relação de Manuel com seu avô e seu tio-avô. O avô é desnecessariamente chamado de Jerry. Aliás, todo o trecho com os idosos talvez pudesse ser retirado, deixaria o conto um pouco mais sucinto e coeso.


Bravo @soniazaghetto!
Tive a mesma leitura que o Décio sobre o trecho dos idosos, mas temos de escrever aquilo que temos de escrever, o conto se alonga um pouco mais do que você espera nas primeiras linhas, mas é muito bom.
Muito bom! A leitura leva a gente em várias direções, sem perder o ritmo, o refinamento e a ternura. Parabéns @soniazaghetto!