A Morte e o Meteoro
Joca Reiners Terron
A Morte e o Meteoro, 120 páginas, é da Todavia
Os últimos remanecescentes da tribo amazônica dos kaajapukugi precisa ser levada para o exílio no México, depois que a Amazônia foi completamente devastada (o livro se passa num futuro próximo levemente distópico). São apenas cinquenta homens, nenhuma mulher e nenhuma criança. O narrador principal, em primeira pessoa, é um funcionário público mexicano encarregado de supervisionar essa operação. Do lado brasileiro, participa um indigenista chamado Boaventura. Metade do livro é narrada indiretamente por Boaventura, a partir de uma longa gravação que ele deixa para o narrador principal.
Simultaneamente à remoção dos kaajapukugi, a China está lançando uma missão tripulada a Marte, a Tiantáng I, com um casal de taikonautas.
No capítulo 1, os kaajapukugi chegam ao México, constroem uma enorme oca e fazem em ritual no qual cometem suicídio coletivo. No capítulo 2, a gravação de Boaventura fala do tempo que ele passou entre os kaajapukugi e sobre seus costumes, em especial o consumo de um besouro alucinógeno. No capítulo 3 a gravação continua, contando como ele sequestrou uma índia, a única da tribo, teve um filho com ela e destruiu uma tumba sagrada dos kaajapukugi. No capítulo final o funcionário mexicano precisa levar os corpos dos índios mortos de volta para o Brasil.
A história é apresentada de forma meio desconjuntada, sem se preocupar demais com realismo.
Por exemplo, Boaventura passa um tempo entre os índios. Como antropólogo, ele tem interesse em aprender sua língua e sua cosmogonia. Mas, em vez de simplesmente conversar com eles, decide sequestrar a única mulher da tribo e transformá-la em escrava sexual. Por que ele age assim? Por que a tribo só tem uma mulher? Nada é bem explicado. (o autor quer exibir a tribo como símbolo: chegaram ao fim da linha, estão condenados à morte por não poderem deixar descendentes; uma metáfora da humanidade frente ao cataclismo climático, talvez)
Conforme se aproxima do final a história vai ficando cada vez menos realista, cada vez mais surreal, com coincidências que se multiplicam. Um desenho na tumba dos índios é igual ao logotipo dos taikonautas; a mensagem da taikonauta é igual ao lema da rádio ouvida por Boaventura; a cosmogonia kaajapukugi fala de um Grande Piloto, que parece ser o taikonauta que acabou de partir, com o futuro sendo igual ao passado numa visão cíclica do tempo ou algo do tipo.
De algum modo, a tríplice coincidência daquele pictograma em forma de capacete de astronauta era a prova de que o tempo podia ser manipulado, de que não era irreversível e de ferro como alguns queriam, e que ao se isolarem na subjetividade de um tempo próprio, os kaajapukugi subverteram o tempo histórico e objetivo. (…) a magnitude física kaajapukugi permitiu ordenar a sequência do acontecido estabelecendo um passado, um presente e um futuro não lineares, que por sua vez permitiram aos astronautas da Tiantáng I se reproduzirem não no espaço, mas no tempo
O texto também é meio desconjuntado, principalmente no começo. Dou exemplos.
Quando enfim apareceram notícias de Boaventura, vieram através da fotógrafa britânica Sylvia Maria Fuller, principal responsável pela menção ao nome dele sempre vir sucedida de mistério
A menção é “sucedida” de mistério? Quis dizer “envolta” em mistério?
o meio ambiente de onde eram nativos, a Amazônia, estava morto, e vinham sendo caçados com determinação pelo Estado e pelos seus agentes de extermínio: garimpeiros, madeireiros, latifundiários
Essas pessoas não são agentes do Estado.
Boaventura, ao iniciar seu trabalho de observação dos kaajapukugi, deu continuidade ao princípio do não contato com povos isolados que a Funai só adotaria como regra muitos anos mais tarde, quando ele já tinha envelhecido, somente depois de povos inteiros serem aniquilados por uma mera gripe transmitida pelo organismo cristão e antievolucionista de algum missionário protestante tomado de bons sentimentos, mas também de vírus letais. Nessas circunstâncias, um espirro era mais devastador que um tufão, e fazia tombar milhares num efeito dominó repetitivo, estúpido e cruel bancado por um deus sempre ausente
Se a Funai só adotaria esse procedimento anos mais tarde, como é que Boaventura “deu continuidade” a ele? O organismo do missionário é antievolucionista? A expressão “efeito dominó” já traz embutido o sentido de repetição, não carece dizer que é “repetitivo”. O efeito dominó é “bancado” por deus? Como assim, bancado? Quis dizer “causado”?
Os hóspedes que o senhor irá receber, ele disse a El Negro, não passam de mortos que andam em direção a lugar nenhum. E nisso compartilhamos algo parecido: estamos todos caminhando pra morte, não é mesmo?
A expressão “compartilhamos algo parecido” causa estranheza. Se algo é compartilhado, então é uma coisa só, não cabe falar em parecença. Se eu e meu amigo compartilhamos um cigarro, então é um cigarro só; se estamos fumando cigarros parecidos, então não compartilhamos. Por outro lado, se o destino de todos é a morte, então são destinos idênticos e não só parecidos.
e início a união dos dois povos não funcionou, e (…) passaram a se estranhar como estranharia a pequenez de uma casinha de anões a filha de um gigante que fosse obrigada a habitá-la
A comparação dos dois povos com gigantes e anões confunde o leitor, pois não são tão diferentes fisicamente. E por que a filha de um gigante?
Entreveros entre os dois povos passaram a ser comuns, quase sempre causados pelas diferenças de hábitos e crenças
Sim, claro, entreveros entre povos quase sempre são causados pelas diferenças de hábitos e crenças.
Boaventura foi certa vez flechado na bochecha e sobreviveu. Ano mais tarde, recebe “ameaças bastante convincentes de o flecharem novamente, dessa vez num órgão letal”. Órgão letal? Quis dizer órgão vital?
Aparecem também umas frases fracas, meio adolescentes, como “Se a ingenuidade costuma ter um final, a cobiça e a violência nunca têm limite” e “observou os arranha-céus metálicos no horizonte, que ele sabia abarrotados de executivos empenhados em lucrar”. Mas há também bons momentos, como este: “Ao ouvir aquilo, Boaventura permaneceu em silêncio, escutando o ruído da correnteza se chocar contra as colunas da palafita sobre as quais se equilibrava o entreposto, observando círculos que se expandiam na superfície d’água, feitos pelas gotas da chuva ao atingir o rio, tão resplandecente sob o luar que parecia coberto de escamas.”
O livro tem originalidade, e fica interessante mais para o final. Mas na maior parte os personagens são rasos, a história é desconjuntada e o texto é pouco cuidadoso. Duas machadadas.
(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)
Está escrevendo um romance? Quer uma leitura crítica 100% sincera? Escreva para decio.machadada@gmail.com
Gosta das resenhas? Considere o acesso pago. Só R$10 por mês.
Está sabendo do Concurso Afiado de Contos? Inscreva-se!




Desconhecia a existência desse livro, as premissas são bem inventivas.
Eu gosto muito de muitos livros do Terron. A morte e o meteoro não está entre os meus preferidos. Mas acho que a crítica erra o foco em dois sentidos. Primeiro, por exigir realismo de uma obra que ostensivamente rompe com esta premissa. É um romance de caráter alegórico, que mais obedece do que transgride as regras do gênero. Fazer perguntas como "por que a tribo só tem uma mulher?" e depois reclamar que"nada é bem explicado" é mais ou menos como julgar que não sabermos os motivos da transformação de Gregor Samsa é uma falha de A metamorfose.
O segundo equívoco da crítica é similar, mas ao nível das frases. Várias delas são impugnadas a partir de uma leitura literal, que nega inteligência ao autor e a seus leitores. Por exemplo, é citado do livro o trecho "vinham sendo caçados com determinação pelo Estado e pelos seus agentes de extermínio: garimpeiros, madeireiros, latifundiários. Em seguida, a condenação: "Essas pessoas não são agentes do Estado". Não vou entrar em detalhes sobre teoria do Estado, ciente de que não é especialidade do resenhista, mas nem é preciso dela para entender que o Estado pode ter como agentes indivíduos e grupos privados aos quais dá carta branca para agir em determinado sentido. Ao longo da história do Brasil, garimpeiros, madeireiros e latifundiários foram e continuam sendo agentes do extermínio do povos indígenas, um extermínio que foi (e, em grande medida, apesar da resistência de alguns setores do atual governo, continua sendo) patrocinado pelo Estado. Portanto, reclamar de incoerência trai uma visão burocrática da construção do texto.
O mesmo para "efeito dominó repetitivo", denunciada sob o argumento de que "a expressão 'efeito dominó' já traz embutido o sentido de repetição". Mas é fácil entender que o autor está dizendo que a propagação de um vírus europeu em uma população nativa causa uma sucessão de mortes (o efeito dominó) e que este fenômeno ocorreu muitas vezes (repetitivo).
Não vou esmiuçar exemplo por exemplo, mas creio que a crítica, embora aponte com razão algumas deficiências estruturais do romance, se perde na busca de incoerências pontuais que, o mais das vezes, se desfazem com uma leitura um tiquinho mais aberta.