5 Comentários
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Avatar de Vitor Tavares

Desconhecia a existência desse livro, as premissas são bem inventivas.

Avatar de Luis Felipe Miguel

Eu gosto muito de muitos livros do Terron. A morte e o meteoro não está entre os meus preferidos. Mas acho que a crítica erra o foco em dois sentidos. Primeiro, por exigir realismo de uma obra que ostensivamente rompe com esta premissa. É um romance de caráter alegórico, que mais obedece do que transgride as regras do gênero. Fazer perguntas como "por que a tribo só tem uma mulher?" e depois reclamar que"nada é bem explicado" é mais ou menos como julgar que não sabermos os motivos da transformação de Gregor Samsa é uma falha de A metamorfose.

O segundo equívoco da crítica é similar, mas ao nível das frases. Várias delas são impugnadas a partir de uma leitura literal, que nega inteligência ao autor e a seus leitores. Por exemplo, é citado do livro o trecho "vinham sendo caçados com determinação pelo Estado e pelos seus agentes de extermínio: garimpeiros, madeireiros, latifundiários. Em seguida, a condenação: "Essas pessoas não são agentes do Estado". Não vou entrar em detalhes sobre teoria do Estado, ciente de que não é especialidade do resenhista, mas nem é preciso dela para entender que o Estado pode ter como agentes indivíduos e grupos privados aos quais dá carta branca para agir em determinado sentido. Ao longo da história do Brasil, garimpeiros, madeireiros e latifundiários foram e continuam sendo agentes do extermínio do povos indígenas, um extermínio que foi (e, em grande medida, apesar da resistência de alguns setores do atual governo, continua sendo) patrocinado pelo Estado. Portanto, reclamar de incoerência trai uma visão burocrática da construção do texto.

O mesmo para "efeito dominó repetitivo", denunciada sob o argumento de que "a expressão 'efeito dominó' já traz embutido o sentido de repetição". Mas é fácil entender que o autor está dizendo que a propagação de um vírus europeu em uma população nativa causa uma sucessão de mortes (o efeito dominó) e que este fenômeno ocorreu muitas vezes (repetitivo).

Não vou esmiuçar exemplo por exemplo, mas creio que a crítica, embora aponte com razão algumas deficiências estruturais do romance, se perde na busca de incoerências pontuais que, o mais das vezes, se desfazem com uma leitura um tiquinho mais aberta.

Avatar de Descendo o machado

Mas eu não exigi realismo. Pelo contrário, comentei que a obra não se preocupa demais com realismo, e ainda sugeri que "o autor quer exibir a tribo como símbolo: chegaram ao fim da linha, estão condenados à morte por não poderem deixar descendentes; uma metáfora da humanidade frente ao cataclismo climático". Então, acho que seu primeiro parágrafo não é justo comigo.

Eu não busquei defeitos pontuais no texto -- eles me saltaram aos olhos. Podemos discutir cada exemplo, às vezes um trecho que eu acho fraco alguém vai achar bom, faz parte. Mas eles se acumulam e, como eu disse na resenha, no geral temos um texto pouco cuidadoso, apressado.

Avatar de Luis Felipe Miguel

Obrigado pela resposta. Ainda estou acostumado à dinâmica das outras redes, que abandonei há pouco, por isso é uma grata surpresa ver a discordância ser recebida com urbanidade. Talvez "realismo" não tenha sido a melhor palavra para descrever o que é, sobretudo, uma exigência de explicação do que causa estranheza.

Avatar de André Tassinari

que saudades de debates racionais como este.