Cantagalo
Fernanda Teixeira Ribeiro
Cantagalo, 318 páginas, é da Todavia
O livro começa com Ambrosina Lima e seu marido, Julião, encaminhando o filho Frederico para pedir a benção à sua madrinha, Praxedes Lima, dona da fazenda de café Cantagalo. Eles esperam que ela custeie a educação do menino no seminário. A visita à fazenda causa forte impressão em Frederico, especialmente uma das filhas de Praxedes, Leopoldina, e a maneira como ela toca acordeão.
Esse na verdade é quase um falso começo, pois o livro é antes a história de Praxedes e de Leopoldina do que de Frederico. Ou melhor, é a história da fazenda, como o título deixa claro. A narração vai e volta no tempo e no espaço, mostrando a infância de Praxedes; seu relacionamento com o pai, o barão; seu casamento com um primo, Eugênio; o nascimento de suas filhas, a vida de Leopoldina no internato; a história de Frederico e seus pais; a amante de Eugênio e a filha bastarda que ela gera. Todas essas histórias se entremeiam e se conectam, montando a teia das relações familiares dos Lima, ligados ao café em Minas Gerais algumas décadas depois da abolição da escravidão.
O leitor faz bem em ignorar os textos de orelha e contracapa, que afirmam que o livro é sobre mulheres em “uma sociedade extremamente racista e e segregada” e que fornece “uma alegoria do Brasil de ontem e de hoje”, por ter “um ponto de vista atual”. A editora escreve essas coisas porque imagina que as pessoas buscam literatura para ler sobre a própria vida, a própria época, o próprio ponto de vista, a própria sociedade. Todo leitor de verdade sabe que isso é bobagem, mas eles insistem. De qualquer maneira, a autora não tem culpa.
Não que as afirmações sejam inteiramente falsas. O livro é mesmo sobre mulheres, as personagens principais são todas mulheres. Mas não se trata de uma obra maniqueísta em que as mulheres são do bem e os homens são do mal, como Viúvas de Sal. Todas elas são retratadas com seus defeitos e qualidades. Até a dura e rabugenta Praxedes se revela cativante, e me ver rir alto nas últimas páginas. O sociedade da época era, por óbvio, muito racista, mas isso também é incorporado na história sem maniqueísmos tolos como em Ébano sobre os Canaviais.
É um romance histórico, uma saga familiar à moda antiga, bem escrita, com olhar atento aos detalhes e certo senso de humor, e com bons personagens (pequeno destaque para a freira Bertha, que discretamente realiza experimentos em genética com as flores do jardim do internato). Somos transportados para a sociedade brasileira daquela época, apresentada a partir do ponto de vista daquela época, sem lições de moral acacrônicas.
Fernanda Ribeiro maneja bem a nossa língua, e é boa frasista:
“Julião quis brincar, o outro não entendeu, gente rica é ruim de entender graça”.
“O menino já ficava muito pra trás, batia o pé e assoviava o lundu tocado pela encardida, o riso cortando o assobio. Aprender latim de ouvido, esse sonso não aprende”
“se cada reclamação fosse conta de rosário completaria um terço só na parte da manhã”
“contei de quando fomos espiá-la no banho?, haja couro velho!, os peitos cumprimentam o chão”
“o maior presente que podemos dar a algumas pessoas é um motivo para nos odiar”
“havia recebido de Cantau um ramalhete de aflições desconhecidas, não achava vaso dentro de si”
“a mulher desejar se casar é como um tropeiro querer que seus burros despenquem um a um no barranco”
Nenhuma machadada.
(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)
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gostei demais do livro (e da sua resenha, como sempre)
Cantagalo parece interessante 👏👏👏