Outro dia (ontem?) o J.P. Cuenca publicou (aqui) um texto interessante “Sobre estreias, jovens envelhecidos e o sentido de escrever” (esse é o subtítulo dele), falando sobre… bem, sobre isso aí.
Bravo! Você toca em pontos muito válidos, especialmente quanto ao diálogo. Estou cansada do papo Substackiano de "escreva para você, sem se importar se será lido", porque só o fato de a pessoa publicar isso já mostra o desejo, ora bolas, de ser lido. É parte integrante do ofício, o deleite da brincadeira, o sabor da conexão. Quando escrevo para mim, sequer publico. Quando me atrevo a parir um texto para o "grande público" (infelizmente, meia dúzia de 2 ou 3 leitores), o desejo de suscitar alguma conversa a partir do que desenvolvi é inevitável.
Escritor que ser lido (até porque ganhar dinheiro com livro no Brasil não existe), se isso é desejo de troca ou vaidade - talvez os dois - não importa, mas quem escreve para ninguém ler faz diário, não literatura
Excelente! A parte em que me comunico com os leitores é, provavelmente, a mais legal! Interagir e se comunicar é sair da solidão da escrita e voltar a fazer parte do mundo do qual nos apartamos por um período muitas vezes bem longo… escrevo por muitos motivos, mas para ser lida certamente é um deles.
Perfeito! Acredito que escritores de ficção sempre pensam: quanto mais leio, mais me deparo com a questão de se tenho realmente algo a dizer, algo a trazer de novo ou interessante, relevante para o leitor, que afinal, é coautor do que lê, na medida em que jamais lerá da maneira que o escritor escreveu. Bem, apenas uma opinião...
Agradeço muito por esse curto texto! Tem vezes em que, escrevendo e querendo ser lida, publicando de forma independente e me ocupando de divulgar a própria obra nas redes sociais, eu me questiono se estou fazendo algo que faz sentido (visto que me deparo com comentários do tipo "escritor que se autopromove é cara de pau"). Nessas horas, é bom ler reflexões como a tua.
Concordo com cada palavra! Inclusive escrevi uma crônica justamente sobre isso!Sempre tive essa angústia de assistir os outros fazendo, escrevendo, vivendo enquanto eu me resignava a assistir tudo em silêncio. Foi justamente o ato de me tirar desse lugar passivo para honrar o meu desejo e construir para/com os outros que trouxe mais movimento pra minha vida. E sim, quero e preciso ser lida, senão, como sempre falo: teria um diário, não uma rede social.
"Não é fácil escrever. É difícil como partir pedras. Consigo a simplicidade com muito esforço. A maneira de se defender é escrever. O que vou escrever já deve estar, sem dúvida e de alguma forma, escrito em mim. Tenho que copiar. Escrevo porque não tenho nada para fazer no mundo: estou de sobra e não há lugar para mim no mundo dos homens. Escrevo pelo meu desespero e cansaço, não suporto mais a rotina de ser eu, e se não existisse para a novidade contínua que é escrever, eu morreria simbolicamente todos os dias." Clarice Lispector. Acho que me identifico com ela (especialmente a segunda parte, a partir de "Escrevo porque não tenho nada para fazer no mundo: estou de sobra(...)"). Não saberia dizer se tenho uma resposta muito clara.
Muito bom o seu texto, Decio. Tenho uma resistência natural a algumas leituras do Cuenca, do jeito como ele coloca a coisa, que afinal dialoga com a vaidade dele antes e sobretudo. Tem muita verdade lá, principalmente muita gente quer vitrine, quer ser de algum modo especial. O mercado também sabe explorar isso, e sinto bem os efeitos agora que lancei meu primeiro romance por uma editora que tem apostas bastante franciscanas quanto à publicidade. Por outro lado, também prefiro e desejo antes esse diálogo, ele sim, fundamental. Nessa conjunção de fatores é certo que nem todo mundo quer ser lido ou ouvido por todo mundo, apesar de querer ter alguma voz quando publica. No seu mais recente livro, Michel Laub toca nisso: se publicar é gesto de vaidade em alguma medida - ninguém nega isso - estabelecer o diálogo com o público é o que de fato importa.
Lendo esse texto eu só consigo me lembrar do "diagnóstico" dado por Zaratustra, no capítulo Dos Poetas (segunda parte de Assim falou Zaratustra):
(...)
Fiquei cansado dos poetas, dos antigos e dos novos: todos eles me parecem superficiais e mares rasos.
Não pensaram bastante na profundidade: por isso o sentimento deles não afundou até os fundamentos.
Um pouco de volúpia e um pouco de tédio: isso foi até agora o seu melhor reflexo.
Sopro e sussurro de fantasmas é o que me parece todo o tilintar de suas harpas; o que sabiam eles, até agora, do fervor dos sons! —
Eles também não são limpos o bastante para mim: todos turvam as suas águas para que pareçam profundas.
E gostam de se apresentar como conciliadores: mas para mim continuam sendo intermediários, misturadores, meio-termos e impuros! —
Ah, bem que lancei a minha rede em seus mares e quis pescar bons peixes; mas sempre puxei a cabeça de um velho deus.
Assim, o mar deu uma pedra ao faminto. E eles próprios bem que podem provir do mar.
Certamente, encontram-se pérolas neles: por isso mesmo se assemelham a duros moluscos. E, em vez de alma, muitas vezes encontrei neles um limo salgado.
Aprenderam do mar também a sua vaidade: não é o mar o pavão dos pavões?
Mesmo diante do mais feio de todos os búfalos ele desdobra a sua cauda, e nunca se cansa de seu leque rendado de prata e seda.
Obstinado olha o búfalo para isso, próximo da areia em sua alma, mais próximo ainda do matagal, mas o mais próximo de tudo, do pântano.
O que lhe importa a beleza, o mar e o adorno do pavão! Esta parábola eu digo aos poetas.
Em verdade, o próprio espírito deles é o pavão dos pavões e um mar de vaidade!
Espectadores quer o espírito do poeta: mesmo que tenham de ser búfalos! —
Mas deste espírito eu fiquei cansado: e vejo chegar o momento em que ele se cansará de si mesmo.
Já vi os poetas transformados e com o olhar voltado contra si mesmos.
Vi virem os penitentes do espírito: eles cresceram a partir daqueles.
Bravo! Você toca em pontos muito válidos, especialmente quanto ao diálogo. Estou cansada do papo Substackiano de "escreva para você, sem se importar se será lido", porque só o fato de a pessoa publicar isso já mostra o desejo, ora bolas, de ser lido. É parte integrante do ofício, o deleite da brincadeira, o sabor da conexão. Quando escrevo para mim, sequer publico. Quando me atrevo a parir um texto para o "grande público" (infelizmente, meia dúzia de 2 ou 3 leitores), o desejo de suscitar alguma conversa a partir do que desenvolvi é inevitável.
Escritor que ser lido (até porque ganhar dinheiro com livro no Brasil não existe), se isso é desejo de troca ou vaidade - talvez os dois - não importa, mas quem escreve para ninguém ler faz diário, não literatura
Excelente! A parte em que me comunico com os leitores é, provavelmente, a mais legal! Interagir e se comunicar é sair da solidão da escrita e voltar a fazer parte do mundo do qual nos apartamos por um período muitas vezes bem longo… escrevo por muitos motivos, mas para ser lida certamente é um deles.
Perfeito! Acredito que escritores de ficção sempre pensam: quanto mais leio, mais me deparo com a questão de se tenho realmente algo a dizer, algo a trazer de novo ou interessante, relevante para o leitor, que afinal, é coautor do que lê, na medida em que jamais lerá da maneira que o escritor escreveu. Bem, apenas uma opinião...
Agradeço muito por esse curto texto! Tem vezes em que, escrevendo e querendo ser lida, publicando de forma independente e me ocupando de divulgar a própria obra nas redes sociais, eu me questiono se estou fazendo algo que faz sentido (visto que me deparo com comentários do tipo "escritor que se autopromove é cara de pau"). Nessas horas, é bom ler reflexões como a tua.
Maravilha!!
Concordo com cada palavra! Inclusive escrevi uma crônica justamente sobre isso!Sempre tive essa angústia de assistir os outros fazendo, escrevendo, vivendo enquanto eu me resignava a assistir tudo em silêncio. Foi justamente o ato de me tirar desse lugar passivo para honrar o meu desejo e construir para/com os outros que trouxe mais movimento pra minha vida. E sim, quero e preciso ser lida, senão, como sempre falo: teria um diário, não uma rede social.
"Não é fácil escrever. É difícil como partir pedras. Consigo a simplicidade com muito esforço. A maneira de se defender é escrever. O que vou escrever já deve estar, sem dúvida e de alguma forma, escrito em mim. Tenho que copiar. Escrevo porque não tenho nada para fazer no mundo: estou de sobra e não há lugar para mim no mundo dos homens. Escrevo pelo meu desespero e cansaço, não suporto mais a rotina de ser eu, e se não existisse para a novidade contínua que é escrever, eu morreria simbolicamente todos os dias." Clarice Lispector. Acho que me identifico com ela (especialmente a segunda parte, a partir de "Escrevo porque não tenho nada para fazer no mundo: estou de sobra(...)"). Não saberia dizer se tenho uma resposta muito clara.
Muito bom o seu texto, Decio. Tenho uma resistência natural a algumas leituras do Cuenca, do jeito como ele coloca a coisa, que afinal dialoga com a vaidade dele antes e sobretudo. Tem muita verdade lá, principalmente muita gente quer vitrine, quer ser de algum modo especial. O mercado também sabe explorar isso, e sinto bem os efeitos agora que lancei meu primeiro romance por uma editora que tem apostas bastante franciscanas quanto à publicidade. Por outro lado, também prefiro e desejo antes esse diálogo, ele sim, fundamental. Nessa conjunção de fatores é certo que nem todo mundo quer ser lido ou ouvido por todo mundo, apesar de querer ter alguma voz quando publica. No seu mais recente livro, Michel Laub toca nisso: se publicar é gesto de vaidade em alguma medida - ninguém nega isso - estabelecer o diálogo com o público é o que de fato importa.
pois é
👏👏👏👏
Boa contribuição. Abraço
Lendo esse texto eu só consigo me lembrar do "diagnóstico" dado por Zaratustra, no capítulo Dos Poetas (segunda parte de Assim falou Zaratustra):
(...)
Fiquei cansado dos poetas, dos antigos e dos novos: todos eles me parecem superficiais e mares rasos.
Não pensaram bastante na profundidade: por isso o sentimento deles não afundou até os fundamentos.
Um pouco de volúpia e um pouco de tédio: isso foi até agora o seu melhor reflexo.
Sopro e sussurro de fantasmas é o que me parece todo o tilintar de suas harpas; o que sabiam eles, até agora, do fervor dos sons! —
Eles também não são limpos o bastante para mim: todos turvam as suas águas para que pareçam profundas.
E gostam de se apresentar como conciliadores: mas para mim continuam sendo intermediários, misturadores, meio-termos e impuros! —
Ah, bem que lancei a minha rede em seus mares e quis pescar bons peixes; mas sempre puxei a cabeça de um velho deus.
Assim, o mar deu uma pedra ao faminto. E eles próprios bem que podem provir do mar.
Certamente, encontram-se pérolas neles: por isso mesmo se assemelham a duros moluscos. E, em vez de alma, muitas vezes encontrei neles um limo salgado.
Aprenderam do mar também a sua vaidade: não é o mar o pavão dos pavões?
Mesmo diante do mais feio de todos os búfalos ele desdobra a sua cauda, e nunca se cansa de seu leque rendado de prata e seda.
Obstinado olha o búfalo para isso, próximo da areia em sua alma, mais próximo ainda do matagal, mas o mais próximo de tudo, do pântano.
O que lhe importa a beleza, o mar e o adorno do pavão! Esta parábola eu digo aos poetas.
Em verdade, o próprio espírito deles é o pavão dos pavões e um mar de vaidade!
Espectadores quer o espírito do poeta: mesmo que tenham de ser búfalos! —
Mas deste espírito eu fiquei cansado: e vejo chegar o momento em que ele se cansará de si mesmo.
Já vi os poetas transformados e com o olhar voltado contra si mesmos.
Vi virem os penitentes do espírito: eles cresceram a partir daqueles.
Assim falou Zaratustra.
Pode ser que a arte seja isso. Mas o artista é?
Vc pode ser lido pela ia, é só jogar no chatgpt