Terceiro colocado
no Segundo Concurso Afiado de Contos
Em terceiro lugar no nosso Segundo Concurso Afiado de Contos, ficou A Drosófila, de Alexandre Constantino.
Sobre o autor:
Substack: @alexandreconstantinoescritor
Instagram: @alexandrekconstantino
Coletânea de contos: aqui
O conto segue abaixo. Volto depois com alguns comentários.
A drosófila
Alexandre Constantino
Não viu o dia amanhecer. Na hora programada, os vidros do quarto tornaram-se translúcidos, derramando no ambiente uma claridade leitosa. X abriu os olhos.
Por uma fração, pensou estar em casa. Mas assim que reconheceu o quarto do hotel, foi tomado por uma serenidade quase búdica. Da cama, viu a mala e as roupas alinhadas sobre o sofá, a interface apagada da TV, a decoração impessoal. Ao mexer as pernas, sentiu o toque do lençol egípcio na pele.
Levantou-se para lavar o rosto com água fria. Retirou a ramela dos olhos e passou as mãos úmidas na mandíbula, como numa propaganda de lâminas de barbear. Parou. Mãos apoiadas na pia, fixou o olhar nas próprias pupilas até que o conhecido efeito hipnótico surgisse e, de súbito, uma sucessão de faces estranhas e grotescas se sobrepusesse à sua. Rompeu o transe e voltou ao quarto para um chá.
Com a caneca nas mãos, caminhou até a porta envidraçada da sacada, ainda parcialmente opaca. Lá fora, o dia avançava: o sol vencia a névoa metropolitana, carros e pessoas tomavam as ruas, mas o burburinho da capital morria no vidro.
Observava a cidade do alto enquanto deslizava pelas fotos do evento da empresa: “Integridade é também nossa Missão”. Dezessete likes. Quem era aquele novato que lhe fez uma pergunta fora do roteiro, perto do final? Quase se enrolou, mas saiu-se bem. Não sabia seu nome, mas guardou bem o semblante.
Seu reflexo misturou-se à vista da cidade, como se pairasse sobre ela. Então notou um ponto branco pousado na esquadria escura. Aproximou-se devagar, o olhar fixo na pequena forma, até perceber que se tratava de uma mosca. Sim, uma mosca. Mas havia algo de distinto: era uma mosca branca. Idêntica às demais, não fosse por esse detalhe: imaculadamente branca, de asas brancas, perninhas brancas, tudo branco.
Uma mosca albina.
Nunca vira uma assim – nem sabia que existiam moscas albinas. Mas eis que ali havia uma, bem na sua frente, imóvel. Chegou mais perto, esperando que voasse; não voou. Limitou-se a um sapateado cômico, girando sobre si mesma, sem sair do lugar.
Recuou, tomou a toalha de rosto sobre os ombros e, num gesto rápido, chicoteou o ar sem atingi-la. A mosca caiu, morta. A onda de choque, como num estalo, desfez-lhe as entranhas, deixando intacta a forma. Com cuidado, levou-a até a mesa. Examinou-a uma última vez, detendo-se nos detalhes de um corpo idêntico em tudo ao de qualquer outra drosófila – exceto pela cor.
Deu um sopro e ela desapareceu na fresta entre a mesa e a parede.
Da mala, separou a roupa do dia. Uma última inspeção do quarto antes de sair para o café. Mais tarde, seguiria para o aeroporto. Diante do espelho, fez o nó da gravata, mas desistiu dela no último instante – melhor assim, mais casual.
Com o cartão magnético nas mãos, chamou o elevador. Lá dentro havia três desconhecidos – ali, todos o eram. Odiaria encontrar alguém da empresa. Cumprimentou-os; foi correspondido. Quando as portas se abriram, interpôs o braço no vão para que saíssem primeiro. Havia uma doçura nessa intimidade sem lastro: mais fácil ser algo para estranhos do que sentir-se um estranho entre os seus. Pode-se ser qualquer coisa para qualquer um, ou nada para todos. Tanto faz.
No salão do restaurante informou ao maître o número do quarto. Foi conduzido a uma mesa individual mais afastada enquanto recebia, em tom neutro, a descrição do buffet. Pediu um suco verde. Enquanto mastigava frutas e cereais em seu desjejum solitário, relaxava ao observar a intrincada coreografia de hóspedes entrando, saindo, solicitando, deglutindo.
Uma senhora sentou-se na mesa ao lado e lhe desejou bom dia; ele respondeu com um sorriso. Um minuto depois, ela disse:
– O senhor está a passeio ou a trabalho? Eu vim para a formatura de uma sobrinha e...
De uma sobrinha. “Para que me conta isso?” Respondeu qualquer coisa, mas a senhora prosseguiu. Enquanto ela falava, X respondia franzindo a testa e arqueando os lábios. Assim que terminou de comer, levantou-se e a deixou falando sozinha. Mostrou ao maître o cartão; ele o passou no leitor óptico.
De volta ao quarto, os mesmos dezessete likes. Alguém postou uma foto do evento. Com os dedos na tela, afastou-os e ampliou a própria imagem no palco. Gostou da expressão séria e profissional, mas aquele ângulo deixava-o um pouco acima do peso.
Desceu para o checkout. No balcão, hóspedes chegando e partindo. Enfim, de volta ao fluxo. Como um pássaro que encontra uma corrente e ganha altura.
– Bom dia. Quarto 902, checkout.
– Bom dia, senhor X.
A atendente já tinha no sistema as três taças de vinho consumidas na noite anterior e informou que separaria o valor da conta corporativa.
– São R$ XYZ. – Girou a tela com discrição. – Pode aproximar o cartão.
Um breve silêncio.
– Prontinho.
O comprovante foi enviado por e-mail; a diária e os demais serviços seguiriam para faturamento direto à empresa. A moça ofereceu auxílio com o transporte; ele disse que pediria um Uber.
– Foi um prazer recebê-lo, senhor X. Tenha uma excelente viagem.
– Obrigado. – disse, sorrindo.
No saguão, pediu um carro pelo aplicativo. A confirmação veio em segundos. Aguardou junto à porta giratória. Um funcionário atento saudou-o com um gesto de cabeça; X respondeu com um breve aceno militar.
Quando o veículo chegou, a mala desapareceu nas mãos do funcionário. Já no banco traseiro, X despediu-se com uma piscadela.
A caminho, recostou-se e alinhou o paletó.
– Alguma preferência por rota? – perguntou o motorista.
– Pode seguir a programada.
Do lado de fora, a cidade corria, filtrada pelo tom sépia do vidro; dentro, a cápsula silenciosa e climatizada o envolvia. As alamedas arborizadas deram lugar ao centro, com seus indigentes, e depois às avenidas que conduziam ao aeroporto. As cenas urbanas se sucediam enquanto, no reflexo, via os próprios olhos e a barba rala – fosse à noite, a cena funcionaria bem num filme noir.
No celular, três comentários e vinte likes. Postou: “Time sensacional. Orgulho!” e um emoji de muque. Pelo aplicativo, o trajeto fluía limpo no mapa, sem congestionamentos ou desvios.
O motorista quebrou o silêncio:
– Se o senhor preferir, posso mudar o som.
Tocava baixinho um remix bossa-nova com batida eletrônica.
– Não, não. Tá ótimo.
Torceu para que o motorista não puxasse conversa, sobretudo de política. Mas ele voltou-se à direção.
Mal chegou, a bagagem já o aguardava na calçada. X deu cinco estrelas para o motorista. Deteve-se ante a extensa fachada envidraçada, cujas portas abriam-se e fechavam-se a cada aproximação anônima.
Ah, os terminais...
O que para a maioria era tão somente um interregno necessário e talvez desagradável entre A e B; para X era um rio onde se podia diluir. Como uma criança perdida numa festa de adultos. Vigiada de longe, ignorada de perto. Hotéis e aeroportos: ali, nunca o procurariam, nem se importariam. Um vulto de paletó entre vultos. Uma ausência com textura. Um perispírito. Era irônico sentir-se vivo justamente quando desaparecia.
Após caminhar por labirintos de filas e verificações, transpor camadas e portais, X chegou ao lounge dos passageiros VIP – uma caixa espelhada, suspensa sobre a área de embarque. Subiu as escadas com o cartão aberto no celular. As folhas de vidro se abriram: um arquipélago de poltronas e mesinhas revelou-se sob um carpete cor de vinho, agrupadas em nichos. Em algumas ilhas, passageiros conversavam em voz baixa; em outras, espectros isolados, absortos em telas e copos. A sua irmandade. Num canto, a luz quente do buffet. Temperatura de museu.
Com um tique no ombro, abotoou o paletó e entrou.
A atendente ofereceu o uísque da marca que manda andar, andar; ele aceitou e se acomodou numa poltrona com vista para os portões de embarque. Um jazzinho anódino embalava o ambiente.
Bebeu um gole. A mente já vinha leve desde a manhã – e mais ainda desde que pisara no aeroporto. No celular, os vinte likes haviam se congelado no passado; agora surgiam outras postagens do evento. Vida que segue, segue. Um like mecânico em cada uma e o aparelho voltou ao bolso.
Observou o movimento no saguão. Viu-se sobrevoando o terminal, captando tudo com olhinhos multifacetados. Lembrou-se da mosca. Uma consulta rápida à IA: Raríssima na natureza. Frágil. Visão comprometida, mais vulnerável a predadores. “Encontrar uma é quase ganhar na loteria”, pensou. “Se eu soubesse, não a teria matado. Bem, quem mandou ser albina?”.
No painel suspenso do lounge, o embarque já estava autorizado. Terminou o uísque sem pressa. O portão estava distante, mas isso não era problema.
De volta ao saguão, deixou-se levar pela corrente. O rumor de vozes e chamadas lhe inundou os ouvidos. Havia nesse retorno ao fluxo aquela intimidade estranha e agradável: respirar o mesmo ar, caminhar nas mesmas direções, seguir os mesmos procedimentos, sorrir sem se conhecer. Era bom ser um cliente, um usuário, uma cifra. Um objeto. Objetos não têm vida; de certa maneira, são eternos. A vida especifica. A morte, ao contrário, dissolve o que há de pessoal – e nisso oferece uma espécie de liberdade.
De repente, X sentiu um puxão na calça.
– Papai!
Olhou para baixo, surpreso com a interrupção do devaneio. Um menino de boné abraçava-lhe as pernas.
– Papai!
Era como despertar numa freada brusca: X não sabia o que fazer.
– Ei... não sou seu pai!
O menino ergueu o olhar, assustado.
– Onde está meu pai?!
– Sei lá, garoto. Deve estar por aí – disse, sacudindo a perna.
Retomou o passo, mas o menino o seguia.
– Me ajuda, onde está meu pai?!
– Olha, procure a segurança, eles vão te ajudar.
– Me ajuda ...
O menino agora soluçava.
– Moleque, presta a atenção: não posso te ajudar, tenho de embarcar, tá bom? Fica aqui parado que seu pai vai te achar.
Seguiu adiante, sem se virar. Já mergulhava no efeito narcótico do fluxo, quando o garoto se atracou novamente à sua perna, desta vez com mais força, como se tentasse contê-lo. X não esperava que o menino retornasse; reagiu com um safanão. O boné voou longe.
– Sai pra lá moleque!
Deu alguns passos, mas ao perceber olhares de reprovação e o choro às costas, voltou, apanhou o boné no chão e o devolveu ao menino atônito, enquanto lhe fazia um cafuné rápido na cabeça, como num cão quando se está com pressa.
Tentou esboçar para os que ainda o observavam um sorriso do tipo “crianças são assim mesmo” – mas o que saiu foi uma careta. Escapou para o portão de embarque, suando. Como cliente diamante, não pegou fila. Um toque do cartão no leitor e já descia apressado pelo túnel. No avião, um aceno desajeitado à comissária. Já afivelava o cinto enquanto os demais passageiros ainda ocupavam seus lugares com semblantes indiferentes. Não, aquilo não havia sido nada demais. O que acontece em Vegas fica em Vegas, pensou. Por hábito, uma última olhada no celular. Depois, modo avião.
Dentro daquele cilindro de metal que cruzaria os ares a dez mil metros do solo, voltava a ser um número no assento, entregue a uma cadeia infinita de gestos invisíveis: malas acomodadas em porões, bandejas lacradas em cozinhas distantes; banheiros higienizados, mãos vedando portas, conferindo bagageiros.
Decolou. Encosto inclinado. Velocidade de cruzeiro. Piloto automático acionado. Dali em diante, tudo seguiria no automático. Até mesmo se o avião se espatifasse no chão – nem saberia. Com fones de ouvido e tapa-olhos, seria como atravessar outro portal.
Horas depois, o avião pousava. Quando observou pela janela o funcionário guiando a aeronave com bastões luminosos, sentiu uma espécie de nostalgia. Em breve, seria expelido daquele útero metálico. O checkout geral daqueles dias.
Ao cruzar a última porta giratória e sentir o vento frio da noite cortar-lhe o rosto, tirou o celular do modo avião e chamou um Uber. Minutos depois, já acomodado no carro, X experimentava a melancolia opaca dos retornos. Dos domingos à noite e escola no dia seguinte. Foi então que o celular voltou a vibrar. E outra vez.
Abriu a primeira mensagem.
“Cara... é você?”
Abaixo, um vídeo curto. Sem som. Imagem vertical, um pouco borrada, filmada de longe. O menino agarrado à sua perna. O safanão. O boné voando. As notificações pululavam.
“Você tá vendo isso??”
“Meu Deus.”
“Apaga suas redes.”
Voltou ao vídeo, que já circulava por outras contas, cortado em ângulos ligeiramente diferentes, desacelerado, ampliado. Alguém congelara o exato instante do movimento do braço. Em outro trecho, um círculo vermelho destacava seu rosto.
Alguns portais já reproduziam manchetes: “Homem agride criança perdida em aeroporto.”
Agora surgiam imagens do circuito interno. A sequência aparecia mais longa: o menino agarrando-lhe as pernas, ele tentando se desvencilhar; o tabefe, o boné no chão. Pessoas olhando.
“Executivo da empresa Y agride criança em aeroporto.”
Logo abaixo, a foto do painel do congresso:
“Agressor de menino participou ontem de um evento sobre Integridade Empresarial”.
Os comentários se multiplicavam. Alguns exigiam demissão. Outros identificavam seu cargo, seu LinkedIn, antigas fotos corporativas. Um perfil publicara seu rosto ao lado da imagem congelada do menino chorando.
“Pai do menino agredido pede responsabilização.”
“Empresa Y avalia medidas após vídeo de agressão.”
X lia freneticamente as postagens. O caso o cuspia de volta à vida vivida. Enquanto passava os olhos pelas mensagens da turba, com seus polegares voltados para baixo, o motorista perguntou:
– Doutor, o ar tá bom?
– Tá ótimo. – respondeu, sem tirar os olhos da tela.
O motorista, animado, prosseguiu:
– Mas e aí, doutor? O que acha? Esse ano dá 13 ou 22? Sei não... o Brasil perdeu a Copa...
Aquilo era o pesadelo. Não bastava o incêndio no celular; agora precisava sobreviver à conversa de política e futebol.
– Olha, preciso resolver um negócio importante aqui, tá bom?
– Sem problema, doutor.
Minutos depois, chegava ao prédio. Desceu sem despedidas nem estrelas. No elevador, os olhos ainda presos à tela do celular. Uma vizinha o observava em silêncio – já saberia? Ergueu os olhos e viu no espelho do elevador um rosto cansado, úmido, excessivamente nítido. Olhou para as câmeras no canto do teto e desviou, temendo que cada passo seu agora virasse notícia.
No seu andar, correu para o apartamento. As bagagens ficaram pela sala. Minutos depois, água quente escorria pelos ombros. O vapor tomou o banheiro. Seu reflexo borrado misturou-se às gotas que escorriam pelo vidro do box, como cacos líquidos.
De volta ao quarto, jogou-se na cama. O celular de novo nas mãos:
“X, precisamos conversar amanhã, te aguardo às 9h na minha sala”, dizia seu chefe.
O vídeo das câmeras do aeroporto já passava de 73 mil visualizações. 1.809 comentários. Sua apresentação no evento ficara nos 20 likes e três comentários. Pela primeira vez em anos, era trending.
Percorrendo as mensagens, surpreendeu-se com algumas favoráveis, que por sua vez tinham várias curtidas: “O pai larga o moleque e acha que os outros tem que cuidar?”. “O cara errou, mas não é pra tanto”. “Mataram alguém? Não, deram um tapa num garoto”. “Só porque o pai é rico, se fosse filho de pobre nem virava notícia”.
Começou a observar tudo com outro olhar. O vídeo estava cortado – faltava contexto. Por que não mostraram a negligência do pai? Ninguém mencionava que ele devolvera o boné, fora prestativo. E o áudio? Alguém registrou o que ele dissera ao menino? Para buscar a segurança? E o garoto? Já não chorava antes? A verdade é que o aeroporto inteiro assistira à cena sem fazer nada. Ele, ao menos, agira. Ensinara o menino a ser homem! E a imprensa, como sempre, engolira tudo sem verificar. Só queria narrativa.
Amanhã haveria conversa, pressão, talvez uma nota de repúdio da empresa. Ele conhecia o script. Cada cláusula do contrato, cada parágrafo do código de conduta – havia ajudado a redigi-los. Talvez fosse demitido. Processado por aquele pai omisso. Iriam para a briga? Pois responderia à altura no tribunal!
Tribunal? X imaginou-se cercado por advogados, entrando no fórum. Portas de vidro e detectores de metal. O som amortecido dos próprios passos nos corredores acarpetados. A sala de audiências refrigerada. De cada lado, as partes em posições precisas, cumprimentando-se cordialmente. A galeria de juristas ilustres pairando sobre os litigantes. Abaixo, o juiz sereno, folheando os autos, sopesando argumentos. A toga saberia reconhecer quem tinha razão.
Sim, saberia. X olhou o celular. Era agora uma celebridade. Tinha um séquito, representava uma causa. Sentia-se vivo. Num impulso, saltou do colchão. Bermuda, camiseta, tênis. A pulseira de atividade física. Já era tarde; melhor assim. A academia 24 horas ao lado estaria vazia.
Nenhum vizinho no elevador, nem no caminho. Meia quadra depois, as portas de vidro abriram-se à sua aproximação. A biometria o liberou na catraca; da bancada, um aceno da recepcionista. Com uma piscadela, X já adentrava o salão.
Num canto, um rapaz suava na bike de spinning, olhos fixos na tela embutida, fones cobrindo as orelhas, alheio. Noutro, uma mulher defronte ao espelho, alternando movimentos com halteres, esquerda-direita, esquerda-direita, o olhar preso no próprio decote. Mais próximo, um homem deitado no banco de supino, contemplando o teto entre uma série e outra. Ao fundo, o ranger cadenciado de máquinas, o barulho seco de anilhas.
No patamar das esteiras, enormes janelas voltadas para a metrópole. Escolheu uma. Não havia mais ninguém. No reflexo do vidro, os cabelos meticulosamente desalinhados contra os prédios ao fundo.
Espantou uma mosca pousada sobre o painel luminoso. Já com os fones no ouvido, conferiu na pulseira os batimentos e a pressão. Ligou a esteira.
Assim que a lona começou a girar, X correu e correu.
Comentários
Não gosto muito do início. Em geral, recomendo evitar começar com o personagem acordando, lavando o rosto, tomando café, etc. Trivial demais. Neste caso em particular, há uma menção a “efeito hipnótico” e “transe” que não levará a nada e parece gratuita.
A aparição de uma mosca branca sugere que algo especial pode acontecer, mas a reação dele é ominosa.
O conto deixa claro que o protagonista é um homem frio, com pouco engajamento emocional com a vida. Do hotel ao aeroporto, temos apenas ambientes impessoais, neutros nenhum traço de intimidade. Aliás, o texto talvez enfatize um pouco demais essa impessoalidade (“Um vulto de paletó entre vultos (…) Um perispírito”) — poderia ser mais sutil.
De repente, a vida intervém. O imprevisto surge na forma de uma criança. Crianças nunca são vultos, a não ser quando estão hipnotizadas por uma tela. Essa está perdida, ainda por cima, precisando de ajuda. O mundo real quer que ele tome uma atitude, participe. Mas ele se recusa. Afasta o menino, de forma desajeitada. À sua recusa em agir corresponde uma enxurrada de ações sobre ele. Não no mundo real, mas no virtual, no mundo descarnado.
O conto termina com a imagem dele refletida no vidro da janela, sobreposta à cidade, remetendo ao início. Só que agora, em vez de pairar sobre a cidade, intocável, ele está com os cabelos desalinhados. A figura da mosca também volta, mas é uma mosca comum, das que espantamos sem nem pensar. Na falta de qualquer relação humana, só resta correr. Correr, mas na esteira, sem nunca sair do lugar.


Reconheço os riscos de começar assim, mas acho que foi bem executado aqui. A reviravolta recompensa o leitor. É um ótimo conto.
Gostei demais!!! Bem escrito e muito reflexivo.